Caminhava, sózinho, pela grande cidade que há anos me acolheu e onde passei bons momentos. Agora, sentia-me desesperado. A fábrica onde trabalhava tinha fechado há cerca de dois anos, que se desconfia ter sido de forma fraudulenta. Ao contrário do que acontece noutros países da inte­gração europeia, o subsídio do Fundo do Desemprego  abarca, sómente, um espaço limitado de tempo. Ainda não tinha conseguido outro emprego. Pudera, com mais de sessenta anos de idade ninguém me aceitava. A reforma antecipada também me era negadat porque faltavam diversos descontos que a administração da firma locupletara-se à minha custa e de outros trabalha­dores. Nenhuma entidade se importou. A fiscalização não actuou. No pre­sente, sou eu o prejudicado. Mesmo a conseguir essa famélica reforma se­ria uma miséria. É o regime da Segurança Social que temos. Confortava-me, ainda, o facto de ter saúde para prosseguir na procura de algo que me pu­desse valer. Talvez principiasse a apanhar papel e cartão deixado na via pública, antecipando-me ao carro do lixo. Podia passar a engraxar calçado num canto de um arruamento da urbe, ou atava uma mão ao peito, colocava óculos escuros e iria pedir esmolas ao arrumar carros na Avenida princi­pal. A vergonha, a timidez ou a inibição teriam de ficar para trás, de uma vez por todas, a fim de começar a fazer dinheiro de qualquer maneira, tendente a subsistir na arena da vida.

Esta situação, agravada pelo facto de ser casado, mas felizmente sem filhos, contribuiu para que a minha mulher, bastante mais nova, ainda apetecível, me tivesse deixado. Acabei por constatar nunca me ter amado, tendo casado por interesse, abandonando a casa, separando-se, com o divórcio a correr.Depressa arranjou outro homem. Este problema expulsou-me da ca­sa onde vivia, no decorrer de um processo de despejo sumário pela razão de não possuir rendimentos para pagar a renda mensal. Pronto, lá se foi o meu último conforto. O destino empurrou-me para um barraco que, à volta, era um mundo de porcaria. Não havia água, nem saneamento básico. A electricidade era roubada de ligações directas e corria através de fios sem qualquer protecção. Os tugúrios estavam cheios de lama misturada com dejectos, no inverno, e poeira e mais poeira e detritos humanos, no Verão. A rataria e toda a espécie de moscas e mosquitos exibiam-se por todo o lado, à volta das barracas, no meio do esterco, enfim, perante tudo o que se possa imaginar de degradante, miserável e infectocontagioso.

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Avizinhavam-se as eleições autárquicas. A luta pelo poder já abrira muito antes da campanha eleitoral. Criavam-se, portanto, as mais diversas encenações e protestava-se, por tudo e por nada, na intenção, para uns lou­vávei e para outros não de despoletar os mais variados conflitos. Eram as chamadas “guerrilhas” institucionais.

De repente, ouço um clamor. Dezenas, centenas, milhares de pessoas apareceram no topo da avenida onde estava a engraxar sapatos e começaram a desfilar à minha frente. Empunhavam cartazes. Diziam-se em greve. Acenavam com diversas bandeiras e dos mais variados tipos. Conduziam carros, carrinhas, camionetas e triciclos que encimavam aspectos caricaturais a exigir melhores regalias ou a denunciar situações de trabalho. Enfim, as reivindicações centravam-se na evolução do custo de vida e da produtividade, bem como reclamando a aproximação dos ordenados à média comunitária, destacan­do-se, por esse facto, as consequentes perdas salariais no contexto euro­peu. O patronato prosseguia numa política de redução de salários e multiplicavam-se as falências. Pretendia-se a revisão profunda do quadro jurídico laborai, numa linha de flexibilização e de diferente regulamentação das condições de trabalho. Caminhava-se, também, para o consequente esvaziamento do con­teúdo das convenções colectivas, face a um nítido desrespeito pelas bases fundamentais do sistema da Segurança Social. A concessão de benefícios fiscais só aproveitava os patrões. Tudo incompetências! Bastaria atentar-se nestes conceitos para se constatar da necessidade de reformar toda a clas­se política. Referiam ser notória a existência de um divórcio entre os sistemas políticos e judicial, colidindo com os cidadãos, decorrendo tal facto de múltiplos circunstancialismos, atentas burocracias enfadonhas e emperramento de processos nos tribunais. Acentuava-se, assim, o défice democráti­co. Teria de haver justiça que abrangesse todo o povo a normas e princípios comuns, para evitar a exclusão social, porque, em contrário, estava-se a assumir a barreira da ilegitimidade.

As vozes saídas dos altifalantes afirmavam querer-se melhores salári­os, reformas adequadas a abarcar todos os campos da vivência humana, pro­tecção aos desempregados, igualdade, fraternidade. Reclamava-se, em paralelo, contra a árvore genealógica que se instalou de forma vergonhosa no Go­verno e que, além de enorme falta de ética, estava a fragilizar a democra­cia.

Neste pulsar de reivindicações, o que deveras me espantou, é que eram trabalhadores de todas as profissões. Conhecia alguns a desfilar com esta­bilidade de empregos e bons ordenados, quer de empresas públicas, quer par particulares, suportados pelo apego ao sindicalismo. Possuíam automóveis de certo porte e andavam bem vestidos, mostrando prosperidade e índices de riqueza, porque quando ia comer uma sopa ao balcão de certos restaurantes estavam a banquetear-se, saboreando marisco e bebidas de marca.

Qual a finalidade da manifestação e da greve? Para exigir o quê? Era para acabar com a situação dos desempregados, como eu? Era para acabar, também, com o sistema das reformas diferenciadas que existem entre o sector público e privado? Todos iriam ter, portanto, as mesmas oportunidades e re galias nas formas de calcular a antiguidade. Os anos de serviço prestados e a contar para a aposentação seriam uniformes, atento todo o género de trabalho, a fim de evitar as desigualdades existentes.

Perante este cenário adivinhava-se o nascer da garantia que convém
sociedade, até agora só escrita na Constituição, que todos os portugueses seriam iguais e teriam os mesmos direitos. Senti-me o satisfeito, tão alegre, leve, sorridente, que corri a juntar-me àquela massa humana.

O meu pesadelo e o meu desespero iriam acabar, tinha a certeza. Voltei a querer ouvir discursos de solidariedade.

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Era Inverno. Encontrava-me a passar uns dias na Serra da Estrela. Du­rante esta época do ano deslocam-se pessoas de todos os pontos do país pa­ra admirarem o espectáculo daquele conjunto de fraguedos, neve e céu, que é maravilhoso. Subimos aos pontos mais altos desta cordilheira movidos pelo prazer da vida ao ar livre, em busca de emoções que só este local nos pode proporcionar. O cume da montanha, de nível acidentado, encontra-se marcado pelo vestígio de antigas glaciações, constituindo divisória de águas e dando origem a formação de rios, alguns de importante dimensão.
À grande diversidade paisagística, onde pontuam ainda interessantes for-

mas rochosas talhadas pela erosão, junta-se uma flora rica, mas alguma com certa endemia, o que lhe reforça, ainda, mais beleza, por razões climatéricas motivadas pelo vento e pela neve.

Devido àquela correria e alvoroço do sonho que tivera, de certo que caí de cima da cama e… acordei gelado em cima do tapete. Safa!

 

Nota: Este conto, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.