Eu era bem pequena quando descobri o mar. Não consigo lembrar-me de quantos anos tinha, mas lembro-me da minha mãe me levar para brincar na praia. Levava religiosamente a parafernália habitual que arrastava pela areia fora para fazer os meus castelos. Juntava os seixinhos e murava tudo à volta. Tarefa terminada, ficava ali a admirar a minha obra-prima e a protegê-la das ondas que se desmanchavam vagarosamente até ao meu castelo de areia. E ficava ali sentada ao ouvir as histórias de príncipes e princesas que a minha mãe contava. Era uma alegria…adorava pegar nos búzios que encontrávamos e escutar o som do mar, ficava fascinada com esse som.

E, durante alguns anos, caminhámos de mão dada pela praia, construímos castelos de areia, ouvimos o som do mar e esperámos pelo pôr do sol, para de novo arrastarmos pela areia fora o saco enorme dos brinquedos e regressarmos a casa…

Quantas vezes eu escutei o som do mar, sem sequer observar a grandeza do oceano. Mas naquele dia eu parei. Resolvi sentar-me de frente para o mar simplesmente a observá-lo, olhando-o nos olhos com o vento leve e salgado batendo no meu rosto. Olhar o mar com calma é quase uma oração… a água batendo nas rochas e as ondas que chegam ate nós desfeitas num rendilhado de espuma levam-nos a reflexões sobre nossas vidas, nossos destinos, sobre pessoas que se foram, e sobre os nossos projetos futuros. O mar, hoje, inspirou-me o desejo de partir para um mundo tão distante e belo quanto aquele onde o sol sumiu.

Talvez o mar traga algo dentro si que lembra a poesia, lembra os passos calcorreados naquele areal, o cheiro do bolo de chocolate que a mãe levava para o lanche, lembra daquela esteira riscada que a gente levava para se deitar na areia, se lembra? Tinha um cheiro de palha, de uma tristeza doce, de algo guardado esperando pela gente lá no quarto de arrumos. Quando chegavam as férias grandes, pegávamos na velha esteira, no enorme saco de brinquedos e íamos para a praia. Coisa antiga.

O mar tem seus encantos, os seus deuses, as suas lendas. Quantas viagens fizemos, quantos mundos construímos a olhar o mar? O mar e as ondas não foram feitos para morrer, mas para pensar, refletir e sonhar! O mar lembra-me o bom tempo, o calor abrasador, a brisa leve, momentos sem escola, a minha infância… Há pessoas que amam o mar, outras que o odeiam ou têm medo dele e outras, tal como eu, sentem um misto de sensações, ora de saudade, ora de esperança no futuro.

Com o passar do tempo crescemos e lembramos destes momentos que nos fascinavam e tentamos descobrir as razões para estes mistérios – hoje a olhar o mar, voltei aos meus tempos de criança!
Ana Eduarda Lira