O ano 2019 iria acabar da pior maneira, ao receber a notícia do seu falecimento.

Natural do Porto, onde nasceu em 1952, o Orlando foi para Angola, ainda menino, mas pouco tempo andou por lá, regressando ao berço da família em Baião.

Em 1957, os pais fixaram residência em Viana, a convite da empresa Pimenta & Cª. Lda., para que seu pai exercesse a função de encarregado na fábrica de tecidos de juta, à Cancela da Areosa, onde atualmente está sediada a empresa SANITOP.

Professor de Francês, Português e Geografia, lecionou na Escola Preparatória Frei Bartolomeu dos Mártires (1975 a 1977) e nas Escolas Secundárias de Monserrate (1977 a 1979) e de Santa Maria Maior (1979 a 1981), terminando funções docentes na Escola Preparatória de Ponte de Lima em 1984, ano em que se preparava para concluir uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas.

O Professor Orlando e Carmo era de uma dedicação extrema aos seus alunos dos quais falava entusiasmado e absorvido na procura das melhores estratégias pedagógicas para os envolver no processo de formação.
Em 1980 publicou o seu primeiro trabalho de poesia, com o título “Impressões”.

Com o curso superior de desenho da Escola Superior Artística do Porto, a sua vida profissional iria mudar de rumo porque, entretanto, candidatou-se a um curso do Conselho da Europa para Instrutores de Formação Profissional, do Centro Europeu de Formação para a Conservação do Património, do qual foi bolseiro.

A partir de então, viria a ampliar conhecimentos e técnicas nos domínios de resinas sintéticas e sua aplicação na conservação de bens culturais e na conservação e restauro de pintura sobre madeira.

Em 1984, a imprensa local e regional anunciava a criação de um ateliê de restauro em Viana do Castelo, projeto do qual Orlando e Carmo sempre fez parte. Esta iniciativa, inédita, teve origem num protocolo celebrado entre a União das Misericórdias Portuguesas (UMP) e a Secretaria de Estado do Emprego, com o patrocínio da mesa da Santa Casa da Misericórdia de Viana do Castelo (SCMVC) tendo como provedor Oliveira e Silva.

Pelo ano de 1986, o Centro de Conservação e Restauro (CCR) da Santa Casa da Misericórdia de Viana do Castelo realizou um curso de formação na área da conservação e restauro de talha dourada, cumprindo, assim, um dos objetivos do programa de ação que foi divulgado na imprensa local e regional: “promoção, com prestação de serviços técnicos especializados, da conservação e restauro de bens culturais de valor histórico e(ou) artístico e a contribuição para a ampliação da consciência relativa à preservação do património cultural português através de cursos, seminários, exposições, palestras e outras atividades divulgadoras”.

No ano seguinte, Orlando e Carmo supervisionou uma formação sobre douramento em pintura mural e estuque. Cumprindo o seu programa, o CCR inaugurou, nos Antigos Paços do Concelho, uma exposição retrospetiva da atividade desenvolvida, em defesa do património cultural e artístico da região.

Nas edições d´A AURORA DO LIMA, de 4 e 9 de março de 1988, Francisco Carneiro Fernandes referiu-se àquela exposição salientando o seu teor cultural e pedagógico porque, além da exposição de várias obras intervencionadas, permitiu-se que o público observasse ateliers ao vivo.

Ao fim de seis anos de intensa atividade, o Jornal de Notícias referiu-se ao CCR da SCMVC como uma das instituições mais prestáveis da cidade de Viana do Castelo. Orlando e Carmo continuava a denunciar alguns crimes que se iam fazendo sem escrúpulos e a chamar a atenção para património que carecia de intervenção urgente, particularmente o da própria igreja da Santa Casa da Misericórdia.

Nesse mesmo ano, uma das suas obras mais emblemáticas foi o restauro do teto do Teatro Sá de Miranda.
Na edição de 5 de novembro de 1990 da “Aurora do Lima”, Francisco Carneiro Fernandes fez uma longa entrevista ao coordenador do CCR que explicou as razões do restauro e descreveu as várias etapas por que passou.
Em 1992, em consequência da situação financeira da SCMVC e, eventualmente, da falta de apoios por parte do IEFP, o CCR encerrou a sua intensa e valiosa atividade, apesar da curta existência de 5 anos.
À falta deste importante recurso para a recuperação e preservação do património artístico e cultural, e tendo em mãos um vasto conjunto de obras para realizar, Orlando e Carmo decidiu, de imediato e em parceria com um seu antigo aluno e velho amigo de escola, criar a “Perpetuum – Conservação e Restauro, Lda.” que viria a extinguir-se em 2009, dando lugar ao “Atelier de Conservação e Restauro”, que funcionou até 2013, sob a sua direção.
Enquanto diretor do CCR da SCMVC, Orlando e Carmo foi formador nos cursos de Conservação e Restauro de Talha Dourada (1986), de Douramento (1987), de Conservação e Restauro de Pintura de Cavalete (1988) e de Pintura Artística (1988-1990).

Na Escola Artística e Profissional Árvore (1993 a 1996) foi coordena-dor e formador do Curso de Conser-vação e Restauro em Pintura de Ca-valete e no curso de Pintura Mural e Estuque. Entre 1999 e 2002 continuou a sua ação formadora na Santa Casa da Misericórdia do Porto e na Universidade Portucalense Infante Dom Henrique do Porto.
Consciente da necessidade de divulgar e sensibilizar para a preservação e apreciação do património artístico, realizou várias exposições e mostras dos trabalhos de conservação e restauro realizadas durante os cursos em que era formador e participou como orador em vários colóquios.
Realizou inúmeras intervenções na área da conservação e restauro em Viana do Castelo e em vários concelhos do distrito, no norte do país e na Galiza.

* * *
Na década de oitenta, Orlando e Carmo teve intensa atividade artística como pintor e desenhista. Participou nas 3ª e 5ª edições da “Exposição Coletiva”, promovidas pelo Centro Cultural do Alto Minho, em várias edições da “Arte na Rua” e na IV Bienal Internacional de Arte de V. N. Cerveira (Artistas de Viana). Individualmente, expôs “Fragmentos da minha confissão” (1984).
Em 1991, participou na Exposição de Artes Plásticas, do Governo Civil de Viana do Castelo, juntamente com Aníbal Alcino, António Silva, Artur Moranguinho, Araújo Soares, Hélder Carvalho, Júlio Capela, Rego Meira, Mário Emílio, Mário Rocha, Miguel Barrote, Rui Pinto e Vítor Barros, entre outros.

O Orlando e Carmo completaria 68 anos em 2020. Por que se foi embora assim, sem avisar, de repente? Talvez por isso, pelo seu desprendimento. E por que deixou os amigos com um nó na garganta?
Dele guardamos o seu paradoxo singular que o fazia tão desprendido do tempo, das coisas e até de si mas, ao mesmo tempo, de um apego profundo às suas ideias, sonhos, projetos e, sobretudo às pessoas que tiveram o privilégio de cruzar as suas vidas com a dele, na circunstância de amigo, de colega de trabalho, de aluno, vizinho ou, simplesmente, concidadão.

Esta nota biográfica serve apenas para um registo sobre a sua capacidade criativa, manifesta sensibilidade e profundo humanismo, a acrescentar a outras impressões de quem dizia de si próprio:

o que faço ou não faço
é de mim, não interessa a ninguém.
se caminho sob a chuva no verão
é porque estou no verão
mesmo que para os outros seja inverno

se visto um fato preto
num dia de romaria
é porque o ponteiro do meu relógio
se atrasou… ou … se adiantou…

… e que ninguém o queira acertar.

Até sempre, Orlando.

 

Carlos Subtil