O novo cartaz das Festas da Agonia será decerto do agrado de muitos vianenses. Porque, com aquela menina bonita e sorridente a dançar em pose triunfante, é fácil gostar dele. Todavia, não traz nada de novo – nem a nível estético, nem conceptual – à História dos Cartazes das Festas. 

Segundo os criadores, a cor verde foi usada como símbolo da esperança. A ideia é previsível, mas aceita-se. Contudo, esse fundo verde sobre a Praça da República ofusca a cidade e não se associa às Festas da Agonia. A inserção das letras na saia da lavradeira, em planos diferentes, é interessante pois alude ao ritmo da dança, mas a escala acaba por encobrir o traje e retirar protagonismo à modelo. 

Ainda que também não sejam inovadores, o cartaz do ano passado com a sua sobreposição de imagens alusivas às Festas, o cartaz de 2019 que estabelece um diálogo espiritual entre a Senhora e a lavradeira – o melhor de todos – , e o cartaz de 2018 com umas letras roxas que remetem para o grafiti num fundo amarelo, são bons exemplos de qualidade estética e eficácia comunicativa na arte da ilustração.

Porém, desde Carolino Ramos que os cartazes replicam um modelo previsível de lavradeiras bonitinhas e imagens da cidade que se começaram a tornar repetitivos. Tantas décadas depois, num novo século, com tantos recursos digitais e com tantos bancos de imagens disponíveis online, espera-se maior arrojo e originalidade dos criadores.  

Algo nunca visto.

Na página da internet www.memoriasdaromaria.pt/ podemos encontrar um dos mais modernos ilustradores das Festas da Agonia: Luís Filipe – um advogado que também foi ilustrador. Porém, este grande artista criou cartazes nos anos 30 e 40 do século passado. Por exemplo, se recuarmos até 1943 vamos encontrar um cartaz muito mais moderno e audaz do que os atuais por incorporar elementos vanguardistas como a geometrização do corpo, a estilização dos rostos e algumas distorções anatómicas que privilegiavam a estética em vez da cópia do real. Para aquela época, tendo em conta o nível de instrução dos vianenses, são grandes ousadias.

A valorização das tradições não implica o recurso a uma estética do passado. Ou, caso seja essa a opção, deveria transfigurá-la em algo diferente e original em vez de a banalizar. As Festas da Agonia deveriam passar uma imagem de modernidade numa cidade que se orgulha do seu passado. Em vez de uma etnicidade castiça que nos torna exóticos – uns nativos simpáticos para anglo-saxónicos fotografarem e colocarem nas redes sociais. Porque os cartazes das Festas são também um dos rostos de Viana do Castelo. E no século XXI, a cidade – cada vez mais divulgada nos media internacionais – tem de mostrar ao mundo um rosto mais moderno e sofisticado. Uma imagem que de Tóquio a Nova Iorque desperte curiosidade, seja comentada e inspire outros criadores.

É esse o grande desafio dos ilustradores que começarem a trabalhar nos próximos cartazes das Festas da Agonia. E talvez fosse boa ideia esquecerem as lavradeiras, a Nossa Senhora e todos os elementos figurativos que têm sido repetidos até agora. Ou melhor, colocarem-nos no cartaz sob forma alegórica, subtil e inesperada. 

Poesia em vez de anúncios.

PS: Só depois de escrever este artigo vi os cartazes finalistas. Há artistas talentosos (as) que estão realmente a tentar criar algo novo. Há sentido de humor. Espero que um deles vença o próximo concurso.

 

João Cerqueira