Deixei no ar, na crónica anterior (com o mesmo título), uma pergunta a precisar de resposta. E a base da pergunta era colocada da seguinte maneira: estas duas aparições (entre outras) foram literalmente escondidas pelas autoridades eclesiásticas (e civis) e só foi dada importância ao fenómeno de Fátima. Porquê?

Saiba-se, desde já, que, segundo o livro “As Outras Fátimas”, como título, e “As aparições da Virgem Maria em Portugal, que a Igreja Católica não reconhece”, do Doutor em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Joaquim Fernandes, há registos vários de “aparições” em Portugal e no Mundo, durante os dois milénios de cristianismo, mas a Igreja Católica só reconhece, como dignas de crédito, 16 “aparições” e, mesmo estas, não são consideradas dogmas de fé. 

Das 16 “aparições” catolicamente reconhecidas, apenas uma está dentro dos limites das fronteiras nacionais (Fátima, no ano de 1917) e, como curiosidade, refiro que a “aparição” mais antiga é a de “Nossa Senhora del Pilar”, em Saragoças, Espanha, no ano 40 (quarenta) dC.

Em Portugal, no século XX, além de Fátima, estão registadas e, sobretudo, noticiadas, mais 11 (onze) “aparições santas”. Todas estas são anteriores à Revolução dos Cravos (1974), mas também foi notícia uma “aparição profana” nos céus de Padronelo (Amarante), em 1977, e o “regresso de uma aparição”, em 1978, a Água de Pau, Monte Santo (Ilha de S. Miguel, nos Açores). Foi um regresso porque a primeira “aparição” tinha ocorrido em 1918.

Nesta lista de “aparições” do Século XX, designadamente uma em 1937, a mais popularmente badalada, mas na década de sessenta, até com laivos de escárnio, era a “Santinha da Ladeira do Pinheiro”, junto a Torres Novas. O caso, a partir do apogeu nessa década, encerra uns anos depois do “25 de Abril”, sem honra nem glória.  Mas a “aparição” de Nossa Senhora da Paz, no Barral, Vila Chã, Ponte da Barca, ao pastorinho Severino Alves, foi classificada, várias décadas depois, pelo prestigiado Cónego da Sé de Braga e Professor Universitário em Coimbra, Avelino de Jesus Costa como “predecessora e preparadora das aparições em Fátima” que ocorreram três dias depois. Como haveria o então simples Padre Avelino, natural do Barral e primo do Severino, de fazer para vencer a sua tese pró-aparição do Barral perante uma Fátima geograficamente no centro de Portugal e perto da capital do império e, é de bradar aos quatro ventos, incrivelmente invejada pela comunidade Espírita, pela comunidade Ovnilogista, pela religião Islâmica (!!!) e pela Ordem Rosacruz (uma corrente místico-filosófica um tanto emparceirada com nomes tão estranhos quanto arrepiantes como Priorado de Sião, Templários, Prelazia da Santa Cruz, Fraternitas Rosae Crucis e Maçonaria)? (ver obra citada de Joaquim Fernandes). 

A dupla Salazar/Cardeal Cerejeira, ou seja, a cruz e a espada, o poder terreno e o espiritual, não permitiria a concorrência dumas “apariçõezitas” insignificantes lá para as distantes bandas das serras do Gerês e do Soajo. E não permitiu mesmo. As aparições do Barral entraram no limbo do esquecimento. 

Mas, em 1967, com o quinquagésimo aniversário das aparições de Fátima (e ainda nos anteriores três dias, as do Barral), que teve as honras da visita papal (um Papa, Paulo VI, no Portugal cristianíssimo pela primeira vez na história!), a presença dos três principais pilares do poder lusitano – Igreja Católica, Forças Armadas e o Salazarismo – o Cónego Avelino Costa achou a ocasião azada para dar um novo folego às aparições do Barral. E registou-se um grande incremento: com a intervenção do referido cónego no XII Congresso Mariano Internacional, em Fátima, 1967; com artigos sobre a matéria no “Diário do Minho” – um jornal da influente Arquidiocese Primaz de Braga; a criação artística da imagem de Nossa Senhora da Paz (chegou a ter várias invocações) e da construção de raiz de uma pequena mas bela capela com cripta e um altar de pedra de quartzo, no local das “aparições”. Tudo isto vem relatado num livro intitulado “Centenário das Aparições no Barral” da autoria de Luís Arezes (licenciado em teologia e humanidades, professor do ensino secundário e colaborador de vários jornais) publicado em 2017. Como este brilhante livro é uma obra recente e completa sobre este tema, remeto os meus leitores para a sua interessante consulta. 

O papel do Cónego Avelino foi crucial na segunda metade do primeiro centenário das “aparições”. Porém, ao falecer no ano 2000 (com 92 anos), não conseguiu o reconhecimento canónico das “aparições” do Barral, que era o seu objetivo principal.

Por minha conta e risco, posso concluir que os zelosos membros da Comissão, constituída por “graves e conceituados teólogos da arquidiocese bracarense” que, mesmo com uso a “métodos violentos” não conseguiram obter outra confissão do menino Severino Alves, mas, apesar disso, teriam achado não existir prova suficiente para atestar uma real aparição de Maria, mãe de Jesus. Estranhissimamente, de todo esse trabalho de averiguação os principais documentos perderam-se… Com esta decisão, da falta de prova, pareceu-me estar de acordo, cem anos depois, o então Bispo de Viana, o malogrado D. Anacleto, que viria a morrer num acidente rodoviário. No entanto, numa visita que fiz ao Barral, num domingo outonal, um grupo de pessoas, homens e mulheres, ditavam em uníssono a sentença, com alguma adversidade e muita tristeza: “Foram os Arcebispos de Braga que sempre torpedearam as aparições do Barral”. (NOTA: o caso de Garabandal virá a seguir)