Durante muitos anos, os Fogos de Viana, Silva & Filhos e Castro & Irmãos tornaram-se o principal cartaz de todos os festejos, animando inúmeras romarias e até manifestações menos populares, ocupando lugar de enorme relevo. Foi no Minho, mais propriamente nas Festas da Sr.ª d’ Agonia, que iniciaram a caminhada para a fama que muito justamente desfrutaram em qualquer parte do mundo, exibindo a sua qualidade de vianenses com orgulho e muita arte.

Recordar os fogos de Viana é garantir o belo, o sonho, o espetáculo maravilhoso, esquecendo, por vezes, que é arte mesclada de luta, saber, angústia e morte. E, quando os aplausos do público exigente ecoam em sincera demonstração de absoluto agrado, como tudo, deviam recuar no tempo em homenagem aos pioneiros que, em fins do século XIX, viveram a esperança do êxito em tão melindrosa arte. Foram muitas as experiências trabalhando a pólvora, utilizando o salitre, enxofre e carvão; e, por fim, carregando uns canudinhos, chegar-lhe fogo para verificar o movimento originado. Animados com o sucesso, novas experiências se fizeram, acabando por surgir os foguetes de dois e três tiros para lançamento diurno. Apareceu então o Manuel Silva – neto do fundador -, que demonstrando enorme interesse pela arte, fez ensaios, procurou misturas e, com limalhas de ferro, zinco e cobre produziu as “estrelinhas”. Com o decorrer dos anos, dedicou-se com mais entusiasmo à arte e, já com cloratos, ácidos, resinas, alumínios e outros produtos cria os “foguetes de lágrimas”.

Manuel Silva alcança a fama. Mas é nesta fase da vida, de tão linda arte, que surge o Zé Castro e, em conjunto, atiram-se na procura de uma certeza futura, estudando afincadamente, procurando misturas e seus efeitos, e expondo a vida abertamente. Porque a par dos êxitos estão as explosões, seguidas de mortes e mutilações, que constituem horríveis desastres, de imperecível crueldade. Só em dezanove de agosto de mil novecentos e vinte e dois, em plena Festa da Sr.ª d’ Agonia, morreram quatro familiares Silvas, que o jornal “A Aurora do Lima” noticiou com o título “Grande desastre – uma oficina de pirotecnia pelo ar – quatro mortos.” De seguida, desenvolvia a notícia de página inteira, descrevendo a terrível catástrofe ocorrida no dia principal das Festas. 

 

Mas nada os faria deter!

Silvas e Castros eram fogueteiros de forte rivalidade artística, que nos davam a fantasia do fogo do ar, o fogo aquático, o fogo preso, os bonecos animados, os célebres fogos de bengala para jardim e janela. Apesar da luta, dos horríveis desastres, estes homens nunca desistiram.

Com a morte do Zé Castro a rivalidade foi-se esbatendo, acabando os Silvas por continuar a fortalecer a sua fama, com novas criações e novas maravilhosas peças. Quantos espetáculos de sonho se repetiram!

Muitos anos se manteve na ribalta a firma Silva & Filhos, agora com o apoio dos sobrinhos José Passos Silva (Zé da Rita) e Alberto Silva, acabando este por se afastar da firma por largo tempo, assumindo o José a responsabilidade de garantir o futuro da enorme fama dos fogos de Viana, criando novas maravilhas, quer fogo do ar, quer preso, cujas novidades  apresentavam anualmente nas Festas da Senhora da Agonia, o “ Fogo do Meio” no Campo do Castelo e, no poético Rio Lima, a inigualável “Serenata”, onde tudo era belo, era sonho e sonho só possível neste incomparável cenário…    

Inúmeras vezes se deslocaram às então Colónias Ultramarinas, ao Brasil e a Espanha. Animaram a receção aos Reis Afonso XIII, Eduardo VII e rainha Isabel. Sempre com grandes espetáculos, deslumbraram visitas oficiais e festas centenárias; maravilhando, ainda, durante muitos anos, a noite de fim de ano na Madeira.

Se as “vedetas” reclamam ovações, os pirotécnicos de Viana mereceram toda a admiração e os justíssimos aplausos que nunca lhe foram regateados. Os “fogos de Viana” eram o extraordinário Cartaz da nossa terra por todo o país e em qualquer parte do mundo. Mas tudo na vida tem um tempo. As oficinas dos inigualáveis artífices encerraram. Primeiro os Castros e posteriormente os Silvas. Relembrando, só se pode dizer que se perdeu uma atividade que era o orgulho de Viana do Castelo. 

Amândio Passos Silva