Deu-se o nome de “OS INDEPENDENTES” a um grupo de estudantes de Belas Artes do Porto (1940 ?), que procuraram lutar contra o ensino escolar artístico ministrado, naquela altura, nessa escola.

As figuras, em princípio mais destacadas e influentes foram os pintores Júlio Resende, Alvarez, Lino Pedras, Aníbal Alcino, Nadir Afonso e, mais tarde, vindo da Escola “Similar”, em Lisboa, Júlio Pomar. A estes juntaram-se, ainda, Pinto da Costa, Alcino Maia, Abel Salazar, professor catedrático, e Augusto Gomes.

A importância destes artistas foi de tal ordem para o progresso das Artes Plásticas em Portugal, que hoje podemos constatar que se criaram: a “Casa-Museu”, de Júlio Resende, em Valbom (Gondomar – Porto); a Casa-Museu de Nadir Afonso, em Chaves; a Casa-Museu de Júlio Pomar, em Lisboa; a Casa-Museu de Augusto Gomes, em Matosinhos (Porto).

Também a coleção das obras do primeiro pintor “abstrato-geométrico”, no Museu Serralves, de Fernando Lanhas (arquiteto). As obras arquitectónicas de Fernando Távora e as produções, a óleo, de Aníbal Alcino, em vários museus do País e do estrangeiro, como o Museu de Ouro Preto, no Brasil; Museu Sousa Cardoso, em Amarante; Museu Soares dos Reis, do Porto, e Museu Regional de Viana do Castelo, etc..

Um dia, muito jovem, com apenas 16 anos, lembrei-me de fazer uma visita à casa do cientista e artista Abel Salazar, em S. Mamede de Infesta, e levei comigo os colegas Fernando Lanhas e Júlio Pomar. Todos nos propusemos a desenhar-lhe o rosto, em sua homenagem. Ele gostou de todos os desenhos, mas salientou o trabalho que eu tinha feito, dizendo-me que ele, o meu apontamento, possuía similitudes com os apontamentos de Alberto Durer, em grande artista gravador alemão.

Abel Salazar era um “anti-fascista”, embora não tivesse a mesma tendência política que a do Pomar, que não escondia a sua simpatia pelo Partido Comunista.

O caso curioso é que na minha juventude, dos 17 aos 20 anos de idade, os meus maiores amigos eram do Partido Comunista, como o Engº Mário Mendes e o Guilherme de Carvalho, por exemplo, que era filho de um homem muito rico (solicitador da Bolsa) que vivia muito bem.

O Guilherme de Carvalho nunca deixou de ser militante do Partido Comunista – tendo sido preso, destinado ao Tarrafal, onde morreu, não deixando de ter o seu nome numa das ruas da Cidade do Porto. Exercia a sua militância na região de Viana do Castelo, tendo sido amigo do senhor Aurélio Barbosa, ex-diretor do Jornal “A Aurora do Lima”.

O arquiteto Artur de andrade (braço direito da campanha política do General Humberto Delgado), encarregou o pintor Júlio Pomar de pintar um “AFRESCO”, no Cinema Batalha, do Porto, o tema da “Festa de S. João”. O cinema foi projeto dele e eu cheguei, de princípio, a pintar, com o Pomar, o tema proposto. Porém, desisti, por entender que o colega tinha um estilo próprio e o meu não “jogava” com o dele… Desisti e fui, antes, pintar a esmalte, um baixo relevo com umas pombas, que estavam mesmo por cima da entrada lateral do salão do Cinema e que foram realizadas pelo escultor Arlindo Rocha que, como sabem, esculpiu a figura do Bispo que confrontou a política de Salazar e se exilou em Espanha.

Também nesse Cinema pintou um painel, a óleo, o pintor António Sampaio, que chegou a leccionar na Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo.

A primeira exposição dos “INDEPENDENTES” foi realizada no Salão Nobre da Escola de Belas Artes do Porto, em homenagem ao pintor Domingues Alvarez. Certo dia, em conversa com o cientista artista Abel Salazar, perguntei-lhe: “Ó mestre, existe Deus? Foi Deus que criou o mundo? Isto é, com as complexidades que ele contém, de biliões de estrelas, cometas e planetas que circulam no espaço? Um espaço onde ninguém sabe se teve um princípio ou um fim?”

Ele disse: Se me perguntas se eu acredito naquela pessoa de idade, com barbas, que criou o homem à sua imagem e semelhança, estendendo-lhe um dedo? E foi pintado no alto da Capela Sistina, em Itália, pelo genial escultor Miguel Ângelo? Eu digo-te que não! Esse é o Deus da Bíblia, que só porque a Eva, mulher de ADÃO, comeu uma maçã da árvore proibida, foi condenada, com o seu marido, a toda a espécie de vicissitudes na sua sobrevivência na Terra? – Eu digo-te que não! Afinal, o que é o “Universo” senão um gigantesco e inexplicável enigma? De resto, estas questões não são bem para a tua idade de 15 anos. Como se concebe que um “homem”, lá em cima, não se sabe de onde, vá recebendo todas as queixas, dramas e dores que os biliões de habitantes da Terra lhe pedem para amenizar ou resolver? Olha, o melhor é nem pensares muito nisso!… Para já, compra um Tratado de Filosofia e depois falamos.

Uns meses depois, soube que o catedrático D. Abel Salazar, que trabalhava na Faculdade de Farmácia do Porto, com a sua colega Dra. Adelaide Estrada, foi expulso do cargo. Este, revoltado, agarrou numa caixa de engraxar sapatos e foi para a principal praça do Porto exercer essa função. Foi uma forma de protesto e revolta que deu brado na Cidade Invicta.

Ainda foi, nessa mesma cidade, que por essa altura também o Bispo do Porto se refugiou em Espanha, por causa de uma carta que remeteu ao mesmo Salazar.