A União Europeia (UE) e outros países ocidentais que comungam dos mesmos interesses enveredaram por um caminho altamente prejudicial para os seus povos, desprotegendo-os dos efeitos decorrentes da adesão aos contínuos pacotes de sanções à Federação Russa por causa da invasão da Ucrânia. As consequências de vária ordem, que começaram bem cedo a flagelar os cidadãos, deveriam ter sido previstas pelos decisores políticos e, obrigatoriamente, divulgadas aos cidadãos, mas, não o tendo sido, parecem configurar um caso de ignorância imperdoável, ou, ainda mais grave, um procedimento doloso que merece ser anatemizado.

Com efeito, as inúmeras sanções ao governo da Federação Russa têm provocado ondas de choque aos povos da UE, comprometendo os seus interesses vitais. É o caso da brutal diminuição dos cereais para aquilo que é básico na alimentação humana, do gaz para uso doméstico e para a indústria, do encarecimento dos produtos petrolíferos (gaz e electricidade) etc. A isto soma-se uma inflação galopante, reunindo-se, deste modo, os ingredientes necessários para uma crise de natureza social e económica sem precedentes. Os justiceiros ocidentais, movidos apenas pela cegueira contra a Rússia, e sem qualquer estratégia preventiva para defender os seus cidadãos, como se impunha, são os geradores de uma crise como não se via desde a segunda guerra mundial.  Andam, agora, alguns responsáveis políticos a tentar colocar remendos, mas o que devemos fazer é questionar-nos acerca da lucidez de quem comanda o nosso destino colectivo. Não estaremos à mercê de um grupo de lunáticos?                 

A convicção da Comissão Europeia, enquanto órgão executivo da UE e apoiada pelos diferentes governos ocidentais, apostando na oportunidade de provocar uma humilhação à Federação Russa, ajoelha-se aos interesses do governo norte-americano, não levando em conta as consequências de ordem destrutiva que poderão advir para a Europa e para o mundo. Falta-lhe uma personalidade forte e discernimento político. A participação no fornecimento de material de guerra sofisticado à Ucrânia, praticamente sem limites, alimentando o conflito armado, não tem paralelo na história. E a conversão de tudo isso em euros ou dólares também já não é contabilizável. O problema maior assenta na resposta que se poderá seguir, porque é mais que certo que a Federação Russa não desistirá de se reencontrar com a sua história, tentando reaver algum território que já foi seu e que permanece na sua alma, sentimentos, aliás, bem patentes em canções ao apelo patriótico, como é o caso de uma alusiva ao Rio Dniepre interpretada por Leonid Kharitonov. 

Os sinais emitidos são mais que evidentes, mas os justiceiros ocidentais não querem dar crédito. Todos sabemos que a Federação Russa é detentora de meios NBQ (Nuclear, Biológico e Químico) poderosos, sendo admissível que possa vir a utilizar alguns deles em ambiente de tudo ou nada, sendo que a humilhação não faz parte das suas dinâmicas. A ameaça existe, é real e tem sido repetida por políticos russos, mas no Ocidente entendem que isso é só retórica. Além do mais, há o perigo das centrais nucleares ucranianas que, além da segurança deficiente, poderão ser atingidas acidentalmente, com todas as nefastas consequências daí resultantes. 

O sr. Zelensky não desconhece que no território ucraniano existem comunidades pró-russas que desejam ficar ligadas de forma umbilical à Federação Russa. Não o querem a ele nem querem pertencer à Ucrânia. É um dado real e indesmentível. A lógica política deveria ser a realização de referendos, permitindo aos cidadãos expressarem-se e respeitando a vontade das maiorias. Nada seria oferecido, cumpria-se a democracia e ninguém perderia a dignidade. Isso ajudaria a diminuir a tensão, a Ucrânia deixaria de ter problemas com separatismos, a Rússia ficaria, de algum modo, compensada e haveria condições par encontrar a paz. Enquanto o presidente da Ucrânia dispuser de apoio explícito do Ocidente, através do envio de milhões de euros e de carradas de armamento sofisticado, a guerra não irá parar e os ódios aumentarão. Será, então, muito difícil que algum dia se restabeleça a confiança entre os Estados antagónicos envolvidos no conflito, enquanto que a indústria do armamento se torna cada vez mais próspera com um campo de ensaios ideal em território europeu, para testar as suas reais capacidades destrutivas. 

Os cidadãos dos países ocidentais parecem ter começado, já, a despertar e a dar sinais de cansaço em relação aos seus governos e ao apoio militar na continuação do conflito, considerando o desprezo a que foram votados. O governo britânico caiu, o da Itália foi pelo mesmo caminho, o de França perdeu a maioria e outros tentam ser cautelosos para evitar o colapso das suas políticas. Mas não há dúvida que as opiniões públicas estão a prestar mais atenção e acredito que outros governos poderão cair. Na verdade, quando nos encontramos perante situações complexas, como é o caso em análise, penso que os governos deveriam, eles próprios, devolver a voz ao povo, criando condições para a escolha de outros protagonistas políticos. Certamente as políticas da UE seriam diferentes, com novas correntes de pensamento e acção para assegurar o bem-estar das populações. 

Como já afirmei noutras ocasiões, não defendo a Federação Russa pela sua “operação militar especial” na Ucrânia. Cuido, tão-somente, de ser realista e objectivo, alertando para o pior neste conflito armado que, no fundo, é entre os Estados Unidos e a Rússia, com o povo ucraniano a ser o cordeiro sacrificial e os povos europeus a levarem com os estilhaços sem que tenham contribuído para tal. Os governantes justiceiros do Ocidente e a Comissão Europeia irão ficar na História da Europa pela sua inépcia em lidar com este conflito, que teimam em continuar a alimentar, e pelo sofrimento a que submeteram e continuam a submeter os seus cidadãos. É urgente que a voz dos povos seja ouvida.