Julgávamos nós que o drama de saúde pública, com percepção de contornos pré-apocalípticos, vivido em Março e Abril últimos, era já situação circunscrita a um irrepetível passado. Efémera convicção! Este mês de Junho trouxe consigo não apenas o Verão e os desejados banhos de mar e de sol, mas também um dilúvio de realidade nua e crua, mostrando-nos, a expensas próprias, que esse passado está e estará, afinal, muito presente, e que a dura e inexorável realidade sempre se sobrepõe, mais cedo ou mais tarde, à confortável mas utópica fantasia de que tudo está bem e assim vai continuar, independentemente dos comportamentos adoptados e da fortuna do contexto vivido. Desta vez, sabemo-lo bem, não será assim.

Decorrente do decréscimo substantivo e aparentemente sustentado dos novos casos de infecção com Covid-19, observado em Maio e início de Junho, fomos criando, fruto de uma natural avidez em retomar a normalidade entretanto suspensa, uma simpática mas pueril ilusão de vitória antecipada e por quase todos tomada como garantida, assente na certeza de que o pior já terá passado. Tal infundada certeza, e subsequente relaxamento de comportamentos de auto e hétero protecção a que estivemos e estamos obrigados, conduziu-nos não a porto seguro, como desejávamos, mas de volta ao Cabo das Tormentas que, afinal, não havíamos dobrado, adiando para mais tarde a viagem da Boa Esperança que todos ambicionamos cumprir. Baixamos a guarda a destempo, e, como expectável, o “inimigo”, resiliente, tacticista e silencioso como já provou ser, contra-atacou em força, não desbaratando a janela de oportunidade que lhe oferecemos em bandeja de prata debruada a incúria e a optimismo injustificado. A culpa, portanto, é só nossa…

…mas achamos que não é. A culpa e/ou a responsabilidade pelo que corre mal é sempre doutrem, e nunca nossa, impolutos e zelosos cidadãos cumpridores de regras. É da China, é da DGS, é do governo. É do vizinho do lado que passeia o cão cinco vezes por dia ou do amigo que vai às compras mais vezes do que necessita. Para os idosos, é dos jovens que se juntam sem cuidados em grandes festas regadas a álcool, a imprudência e a uma ingénua convicção de absoluta imunidade. Para os jovens, é dos idosos que facilitam, convencidos que as cicatrizes da longa vida que carregam lhes induz, também a eles, a imunidade de que, na verdade, ninguém é portador. Para muitos é dos lares que nunca se prepararam convenientemente. Para os portugueses do Sul, a culpa era dos portugueses do Norte quando o foco da infecção acometeu, com mais ímpeto, a região, a tal habitada por uma “população menos educada, mais pobre, envelhecida e concentrada em lares”, conforme descrito pela TVI numa mais do que lamentável e infeliz peça “jornalística” que serviu exclusivamente para reduzir o país, numa fase tão crítica, a uma simplista, arrogante e perigosa dicotomia “bons, cultos e responsáveis” vs “maus, burgessos e incapazes”. Para os portugueses do Norte, a culpa é agora dos do Sul e em particular daqueles que povoam a área da Grande Lisboa – que concentram mais de 80% dos novos casos diários de infecção, ultrapassando já, em valores absolutos, o registo acumulado do Norte – por terem, pretensamente, baixado a guarda e facilitado nos comportamentos, desbaratando o sacrifício colectivo de tantos meses e comprometendo decisivamente o futuro próximo. Em ambos os casos todos se esquecem que neste combate que se exige universal e coordenado não há o “eles” do Sul, e o “nós”, do Norte. Há o “nós”, apenas e só. O barco é o mesmo, e, por isso, um rombo no casco do lado dos portugueses do Sul afecta também os portugueses do Norte (e vice-versa). A única diferença é que uns molharão os pés primeiro, mas no final afundaremos todos…

A procura, ainda que forçada, de um responsável ou culpado, de uma qualquer congeminação conspirativa ou de um mero mas reconfortante bode expiatório que urge apontar, primeiro, e sacrificar, depois, endossando-lhe a nossa própria responsabilidade, nada resolve e tudo compromete, pois desvia-nos do essencial. Se a culpa é dos outros, os outros pensam o mesmo, já que os “outros” dos outros somos, afinal, nós próprios. Cumpre-nos assegurar, assim, que a pandemia não redunde em pandemónio…