A Constituição da República Portuguesa de 1976, introduz o conceito de “Poder Local”, naquilo que se considera uma inovação que, no futuro, faria parte da nossa vida coletiva, com grande influência no quotidiano das populações e das comunidades.

Não obstante, não é fácil constituir listas para concorrer às eleições autárquicas.

A primeira dificuldade é a falta de disponibilidade das pessoas em geral. A ação política não é vista com muito bons olhos por muitos, e obriga a um escrutínio permanente, que exige resiliência, muito trabalho, competência e muito esforço pessoal.

Uma outra dificuldade é a exigência que a generalidade dos partidos coloca nessa escolha, procurando candidatos competentes, que se identifiquem com os seus propósitos, ideologias, planos de ação, para que não surjam surpresas desagradáveis ao longo do processo de campanha eleitoral e, posteriormente e em caso de eleição, na ação governativa local.

É devido a estas dificuldades que os partidos mais pequenos, com menos possibilidades de eleger, não concorrem em todos os municípios ou freguesias, especto ultrapassado pelos partidos maiores, que tornam a aceitação mais aliciante para os putativos candidatos, dada a maior probabilidade de atingirem o objetivo, que é ser eleito.

Tomo como exemplo dois partidos: o Bloco de Esquerda, que concorreu em 128 municípios, e o Iniciativa Liberal que concorreu em 51 municípios, ambos bastante longe da totalidade possível, que é de 308.

Obviamente que os militantes ou simpatizantes destes dois pequenos partidos, nos círculos onde não apresentaram candidatos, deslocaram o seu voto para alternativas várias. Ou optaram pelo voto útil, combatendo assim a direita ou a esquerda conforme o seu interesse, ou votaram noutro partido que consideraram ideologicamente próximo, ou votaram em branco, ou, simplesmente, optaram pela abstenção.

Esta realidade faz com que, de um modo geral, os resultados globais destes partidos, quanto ao número total de votos, não tenham a expressão real da sua dimensão nacional.

Vamos agora ao Chega, que alguns analistas referem como sendo um partido que foi bem-sucedido no seu processo de implantação, pois elegeu diversos vereadores.

O Chega recrutou muitos dos seus candidatos nas redes sociais, sem qualquer preocupação com atributos fundamentais que devem ser observados nestes casos. Nem isso lhe importa. Vale mesmo é mostrar que tem mais votos do que os outros, posicionando-se no pódio da grelha pós-eleitoral.

Mais; um dos seus propósitos é a “destruição” de partidos de esquerda por ele identificados.

Devido a essa falta de critério, conseguiu candidatar-se em 220 municípios, amealhando assim votos que de outro modo não conseguiria obter.

Todos nós demos, de certeza, grandes gargalhadas ou ficamos simplesmente perplexos, com as intervenções de diversos desses candidatos, que com discursos desconexos, sem qualquer contextualização, ridiculamente pobres de conteúdo, sem orientação ideológica, não pouparam o país a uma imagem hilariante/degradante, do que nunca deve ser a ação política.

A votação conseguida por alguns destes candidatos, revela bem o estado de literacia que ainda subsiste, infelizmente, na nossa sociedade.

Terá o Chega, eventualmente, outros candidatos que não obedecem a estas premissas, sabendo exatamente ao que vão, mas são minoria em meu entender.

Esta falta de qualidade na ação, a que o Chega já nos habituou noutros domínios, terá respostas diversas por parte dos autarcas vencedores que os terão como vereadores.

Ou os utilizam como aliados para conseguir governar a qualquer preço, o que em certos casos não me admiraria muito, ou rejeitam a relação com uma organização que de democrática nada tem, dado que defende sistematicamente medidas e ações inconstitucionais.

Penso que o caminho deverá ser este segundo, para preservação da nossa democracia e sanidade mental de todos.

O facto de ter tido menos 300 mil votos do que nas eleições presidenciais, já é um bom indicador.

Resta ao regime democrático usar os mecanismos legais para obrigar o Chega e os seus apaniguados a um comportamento consentâneo com as leis, de modo a que uma minoria antidemocrática não possa usar os mecanismos da democracia para a minar e destruir.

Quanto ao funcionamento das autarquias e de como influenciam a nossa vida, escreverei oportunamente.

Então…viva o Poder Local!

José Carlos Barbosa