Estava eu a meditar sobre estas férias em Viana do Castelo e a questionar-me sobre o que iria escrever sobre elas, quando uma luz ao fundo do “túnel” me “disse” porque não escrever sobre os portugueses que vieram, sobretudo de África, com a chamada “Descolonização” e a quem impropriamente chamamos “retornados”, pois muitos deles nasceram lá e por isso, não “retornaram” coisa nenhuma! Prefiro chamar-lhes refugiados ou deslocados, pois muitos deles tinham Angola, Moçambique, Guiné, Timor, etc., como sua terra. Ainda hoje se emocionam quando falam de África. Não sou (nem nunca fui) defensor do colonialismo, muito menos do neocolonialismo, contudo, como vivi a sua vinda e me apercebi da sua tragédia, não posso deixar de me comover com a sua desgraça, humilhação e com a perda de toda uma vida de trabalho, sacrifício e dedicação a si e aos seus. Esta “luz” a que me referi, foi iluminada pelo excelente livro, que acabei de ler, chamado “Os Retornados Mudaram Portugal”, escrito pelo grande escritor Fernando Dacosta. Como ele escreveu “Ninguém sabe ao certo quantos portugueses vieram de Angola, Moçambique, Guiné, São Tomé, Cabo Verde depois do 25 de Abril. Alguns referem oitocentos mil; outros, um milhão. chegaram por barcos e aviões, golfados em caudais intermináveis de desespero e desamparo – sob o frio, o pudor, o espanto.
O eco do seu êxodo condoeu então o mundo. O velho império português retornava cabisbaixo às praias de onde, séculos antes, partira para epopeias imorredoiras.” 1

Palavras duras, mas reais… Todos sabemos que a descolonização era inevitável, tivemos tempo para a fazer com dignidade, mas não a fizemos… Nas palavras sábias de Agostinho da Silva (em Cartas Várias), “A expulsão dos portugueses de África será tão grave para África como a expulsão dos judeus de Portugal foi para Portugal”. A constatação desta realidade aí está, perante os nossos olhos… Estes refugiados (prefiro chamar-lhes assim a retornados) eram, na sua maioria gente trabalhadora, empreendedora, que por aquele mato dentro, ergueu cidades, hospitais, escolas, comércios, vida. Vi a sua chegada e constatei a revolta e a humilhação, espelhada nos seus rostos. Apesar da minha juventude, dei um pouco da minha colaboração ao IARN (Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais) e vi muita gente chegar só com a roupa que traziam no corpo, muitos famintos, mal vestidos, e o que é pior, com a alma e o ânimo em farrapos. Vinham de barco, avião, enfim algo que os trouxesse para a “Metrópole” que muitos nem sequer conheciam… Durante três, quatro meses, foram realizados pelo menos 905 voos de companhias de várias nacionalidades – com inexcedível papel da TAP, em sucessivas pontes aéreas.

Escreveu Fernando Dacosta: “Quando D. Dinis acaba o seu reinado, Portugal está pronto. Tem o território definido, possui campos férteis (…), dispõe de castelos sólidos (que não deixam avançar os castelhanos), disfruta de religião própria (o culto do Espírito Santo), de língua sólida, de universidade inovadora, exulta vontade de se exprimir, de existir. Existir desenvolvendo-se internamente ou derramando-se externamente. Derramou-se. Engendra então a espantosa gesta das Navegações – que o faz mudar e adiar-se a si”. 2

Depois… foi o sonho das Índias, dos imensos Brasis, de África… escreveu o escritor brasileiro Ramos Tinhorão: ”A História de Portugal é mestiça, os mestiços são uma invenção portuguesa”. Penso, muito sinceramente, que a maioria dos portugueses (que foram por esse mundo além…) não eram racistas. A descolonização era inevitável e deu-se. E o “resto do império” veio para uma “Metrópole” que não os soube acolher condignamente (lembro-me perfeitamente da miséria do Vale do Jamor e de outros locais miseráveis em que foram obrigados a viver com a família, muitas vezes todos no mesmo quarto, onde cozinhavam). Subiram a pulso a nova vida que foram obrigados a suportar. Montaram comércios, indústrias, cafés, supermercados, enfim, o que podiam… trouxeram uma mentalidade mais aberta, sem os preconceitos de um país provinciano, como era o Portugal da época. Gente com novos hábitos, mentalidade inovadora, novas músicas, novas maneiras de vestir, maneiras de falar…

Como escreveu a grande poetisa Natália Correia: “A sua influência (dos deslocados, como ela lhes chamava) (…) vai dar-se sobretudo nos seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Preparem-se porque vão fazê-lo. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhes visões do país diferentes das nossas. Mais largas, mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança! Será um fenómeno crucial daqui por 30 anos”.

Esta é uma História que tem ainda muito que contar… Mas a realidade é que Portugal mudou, e muito por influência dos tais “retornados”. Hoje já totalmente integrados, mas o “sonho africano” continua no seu coração. A saudade, tão portuguesa, ainda lhes faz sonhar com África. Juntam-se em piqueniques, churrascadas, patuscadas e revivem a sua vida passada em África. A modos de despedida, e em nome dos portugueses que nunca puseram um pé em África (África é mítica, mesmo para quem nunca lá viveu…), digo-vos MUITO OBRIGADO POR AJUDAREM PORTUGAL A MUDAR. DEUS VOS AJUDE E À VOSSA FAMÍLIA!

1 – Fernando Dacosta, “Os Retornados Mudaram Portugal”, pág. 15, Edições Parsifal, 1ª Edição, Lisboa, 2013.
2 – Obra e autor citado, pág. 35.

 

Imagem: Público