Começava o ano letivo de 1954/55 e os meus pais decidem então por-me a estudar! Só que as dificuldades financeiras eram muitas e tive necessidade de ir também trabalhar.
A partir daí passei a ser trabalhador estudante. Ia então todas as manhãs para a oficina de bicicletas e de serralharia do meu primo Domingos Castanheira, nas Neves, Vila de Punhe. Iniciei o meu trabalho a dar ao fole na forja que ele dispunha na oficina, aguçando os picos que os canteiros do lugar de Milhões – Vila de Punhe, levavam para trabalharem a pedra na edificação do Templo-Monumento de Sta. Luzia, em Viana do Castelo.

Estes trabalhadores, grande parte deles, oriundos desta freguesia e limítrofes, em parte recrutados pelo Mestre Lima, também conterrâneo, faziam a pé, várias vezes, o trajeto de ida e volta entre Sta. Luzia e a aldeia. O Domingos Castanheira também ferrava os cavalos, e, lá o ia ajudar na mudança das ferraduras dos animais.

Da parte de tarde, ia para a estação de Barroselas apanhar o comboio das 15 horas que me levava a Viana para frequentar a Escola Industrial.

Passado uns tempos, já perto do fim do curso, consegui emprego na serralharia dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e comecei então a apanhar o primeiro comboio da manhã que passava em Barroselas às sete horas da manhã. Fazia o trajeto, a pé, todos os dias de ida e volta, entre as Neves e Barroselas, regressando a casa cerca das 22 horas, pois continuava a frequentar as aulas noturnas. Só tinha comboio de regresso a essa hora!
A partir daí, a minha mãe tinha a canseira de me acordar todos os dias e fazer-me o pequeno-almoço: uma cevada e pouco mais!

Todo o dinheiro que ganhava era entregue em casa para sustento da família. Éramos seis irmãos e eu o mais velho de todos! Fiz o meu curso industrial, trabalhando de dia e estudando à noite!

Já perto do fim do curso, surgiu-me a oportunidade de ingressar na sala-de-desenho dos Estaleiros Navais. Fui submetido a concurso e acabei por ser colocado. Foi uma alegria! Passei a ganhar seiscentos escudos por mês! Estávamos em 1960. Já ajudava muito os meus pais. A minha vida tinha mudado para melhor e, desse tempo, restam-me gratas recordações pelo convívio que passei a ter com os colegas, principalmente os da sala-de-desenho dos Estaleiros Navais, tais como: o Miranda, o Elder Carvalho, o Ferreira, o Pereira, o Amadeu e outros que já não fazem parte dos vivos, que não relembro momentaneamente. A todos presto a minha homenagem. Por eles nutria muito respeito e admiração. Ajudaram-me muito na minha integração. Foram inexcedíveis. Sempre os recordo com muita saudade.

A Escola, essa, nunca deixei de a ver! O edifício não se apaga, embora me deixe, nesta fase da vida, muitas saudades dos colegas que já partiram e dos que ainda reencontro ocasionalmente, graças ao convívio desses tempos e que revejo por esta terra que muito amo, por estas ruas “compridas e estreitas”-, como diria “Pedro Homem de Mello”.

Lamentavelmente, alguns foram para o ultramar e não mais voltaram… Infelizmente!
Outros tempos!
Fica a saudade.