Recordando uma crónica, uns números atrás: as duas primordiais funções humanas (de cada pessoa, acrescente-se) é a defesa da vida individual e a procriação e o crescimento da humanidade. Mesmo tendo em conta a mitologia própria de alguns livros do Antigo Testamento, todos ouvimos falar da sentença de Deus, no fim da criação do Mundo e da humanidade e de todos os seres vivos: “crescei e multiplicai-vos”.

Quem compôs a Bíblia antiga, não referiu que houvesse para a humanidade uma alternativa nessas funções essenciais (conservação da espécie humana e procriação). E Deus (ou a Natureza) foi tão generoso que fez acompanhar essas funções de benefícios, desejos e prazeres particularmente intensos. E Deus foi tão generoso (ou a Natureza) que a vida terrena e os participantes desse dom divino são infinitamente diversos, quer os do reino animal, ou vegetal, ou mineral. Isto nem precisa de prova científica e, nem mesmo, de revelação divina. É o que se observa no quotidiano: a imensa variedade de espécies e, dentro de cada espécie, nada está estandardizado. Na espécie humana, cada um de nós é obra única: no espírito, na mente, no corpo, na sexualidade, nas emoções, nos temperamentos, nos desejos, nas dores, nos prazeres, nas vontades, nos altruísmos. O relativismo é a regra. Para os crentes, absoluto só Deus, que – segundo o evangelista João – “jamais alguém O viu” e, acrescento eu, provavelmente jamais alguém O ouviu. Se calhar, qualquer um de nós é capaz de O sentir perante uma paisagem de beleza indescritível, na estonteante emoção de uma música ou perscrutando, em noites límpidas, a infinitude do Universo e a quase certeza de outras vidas, de outras galáxias, de outros mundos, de outras criaturas ou de outras evoluções.

Claro que os cientistas, que primam pelo estudo aturado, peia experimentação contínua, pela conclusão provada e, em caso contrário e mais tarde, com a humildade em reconhecer que as suas conclusões não eram certas, merecem o respeito de todos nós.  Infelizmente, porém, os teólogos (alguns, pelo menos, e do tipo fanático) e as suas supremas autoridades de vários quadrantes geográficos e religiosos, criaram os dogmas – uma verdade teológica proclamada sem discussão. Não é fácil para ninguém, muito menos para um modesto crente, conviver com tais amarras. Já o escritor e filósofo inglês (entre outras áreas do saber) Gilbert K. Chesterton (1874-1936) assim dissertava sobre o dogma: “Dogma não significa ausência de pensamento, mas sim o fim do pensamento”. Há que notar que Chesterton professava o catolicismo. Como podemos nós viver sem pensamento?!

O dogma é definido, portanto, como verdade absoluta e indiscutível. Dos vários grupos a quem são, pelas igrejas, atribuídos dogmas (Deus, Jesus Cristo, Maria, Humanidade, Papa e Igreja Católica, sacramentos, criação do Mundo, o fim do Mundo) ressalta a pessoa de Maria, com 8 dogmas ou doutrinas. E à cabeça deles vem o dogma da “Perpétua Virgindade de Maria”. Porquê a “virgindade de Maria” e não a “maternidade de Maria”, simplesmente? A que se deve esta obsessão sobre a virgindade por parte dos doutores da Igreja? – pensarão psiquiatras e psicólogos. Por sua vez, os publicitários e especialistas em marketing se questionarão: provavelmente, a marca “virgindade” é muito vendável e financeiramente lucrativa. Os técnicos de recursos humanos serão de opinião que a prática da virgindade acarretará vantagens em qualquer instituição ou empreendimento, na prestação dócil de serviços gratuitos ou quase. Na conceção das imaculadas catequistas, a virgindade é um dos mistérios da teologia. Mas o obediente Abade rematará rispidamente a desconfortável discussão com uma seca frase: trata-se de um dogma e ponto final.

Na minha opinião, o conceito de virgindade em idade adulta causou, durante muitos séculos, grande confusão, acrescentando graves e desnecessários tabus ao mundo dos afetos e da sexualidade. A Maria o título maior e mais sublime que lhe pode ser atribuído é o de “Mãe de Deus”. Foi instituído como dogma (ou simplesmente referido como doutrina) apenas no século V (concílio de Éfeso, ano de 431). Assim se referiam parte dos cristãos, já profundamente desunidos: Theotócos (Mãe de Deus, em grego). Todos os outros dogmas sobre Maria são posteriores, em séculos. (Para continuar)