O tempo tudo apaga, tudo destrói, no seu andar constante. A mais viva recordação ou o mais forte desgosto a que nos apegamos, num curto es­paço de tempo, atenta a sensibilidade ou o estatuto de cada pessoa, não passa de uma imagem ténue e vaga. Nada há que lhe resista, que lhe faça frente. A sua acção é destruidora. O seu poder é ilimitável. Estende-se não só ao palpável, ao material, mas atinge, também, a própria alma na sua espiritualidade.

O que resta da candidez anímica e da subtileza de infância? Somen­te, uma semelhança vaga e desconexa, enfim, um ser muito diferente daquil que era, ou melhor, uma pessoa já fortalecida pelas andanças da vida, relebrando, com saudade, os momentos em que feliz e descuidada a existência decorria. O viço da mocidade vai-se apagando, sucedendo-se à quietu-

de física o escurecimento, a morbidez psíquica e até intelectual. O gra­cioso adulto, que tanto impressionara pela sua actividade, jaz, agora, num esqueleto disforme, consumido pela terra, contrastando com aquilo que fora no passado.

Paradoxalmente, quando a desgraça nos atinge, o tempo parece mos­trar como que um certo prazer em prolongar-se. Por outro lado, nos mo­mentos em que a felicidade não está longe, ou até alcançada, mal a dei­xa saborear, para fugir, ou antes, correr velozmente, ficando apenas no seu rasto a doce lembrança que ele mesmo se vai encarregando de diluir. É como um ser alado com vôo intermitente de repentinas mudanças e que se compraz, em passo lento, como ave a quem tivessem cortado as asas, para logo, vertiginosamente, as retomar e seguir.

De facto, quando a vida dá a impressão de ser um mérito vivê-la e a alma uma promessa de bem querer, transforma-se, nitidamente, sem que disso sejamos apercebidos num espelho onde transparece todo o passado.

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Tempos de criança, na província, revivia e recordava a Fany, brincando, descuidada, no quintal da sua casa, onde as flores, ao desenvolve­rem-se, aromatizavam o ambiente e as abelhas vinham buscar matéria pa­ra produzir o mel, que o pai, depois, extraía das colmeias. Chegava, em paralelo, a Primavera. Consigo trazia vida, alegria e calor. Vinha tirá-la do torpôr em que a estação invernosa a havia lançado.

Nesta quadra, a terra, como por encanto, transforma-se num verde garrido, que o vento produz ondulações, parecendo vagas num mar calmo e sob o céu límpido e transparente. As torrentes que desciam pelos declives modificam-se, agora, em cursos de água cristalina de deslizar brando, que vistas à distância e sob a influência do astro-rei lembram superfícies prateadas. Os montes, que no Inverno imprimiam um tom nostálgico com a sua nudez são, nesta época, um manancial de riqueza variante e variada de policromia e vegetação. A natureza renova-se. Tudo nela é alegria e movimento…

É neste ambiente que parece mostrar felicidade, contentamento e amor, que decorre a Páscoa de todos, embora o íntimo de cada um fique submergido nos seus próprios problemas. O corpo, na vertente espiritual, tenta adquirir uma nova vida. A alma, na via do catolicismo prepara-se, também, para se elevar acima do que é mundano e terreno.

Neste cenário litúrgico o Domingo de Ramos é bem acolhido. Os ramos de oliveira e palmeira são um aliciante de paz, ao suavizar o ar que os rodeia com o seu perfume natural e que a atmosfera se encarrega de transportar. Numa imagem figurativa podemos afirmar que se opõem às drogas que suavizam, momentaneamente, cavando, cada vez mais, o abismo.

Sem aquela pompa de Sevilha, que atrai enorme quantidade de turis­tas, que a Fany visitou num ambiente de prazer, sem tão pouco reparar no belo e divino, porque naquela temporada só interessava o material, lembrava, no presente, que nem por isso é mesmo bela e talvez mais cheia de sentido a nossa Páscoa.

Na Quinta-feira Santa o universo parece querer participar no senti­mento das pessoas que visitam as igrejas. Em paradoxo poderemos pensar que os pássaros, ágeis e irrequietos, cortando o espaço em todos os sentidos estão embevecidos com o seu voar menos veloz e mais contemplativo para o planeta Terra. O céu está mais perto com o aproximar da Ressur­reição. E para ele todos acorreríamos se a carne não nos chamasse ao mundo efémero e supérfluo.

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Fany, na sua vivência de trintona, mesmo tendo suportado variadas intempéries no caminhar da vida, ainda conservava muitos traços de elegância dos tempos de menina e moça, mostrando, em simultâneo, esper­teza aliada a forte sensualidade e a uma presença cativante.

Abandonou os conservadorismos orientados pelos pais, que conside­rou rígidos e ultrapassados, experimentando um mundo de novas sensações. Nesta sequência o quotidiano passou a ser-lhe madastra. Confusa e um tanto perplexa com o que lhe estava a acontecer, rumou noutra dimensão, entrando no capítulo da aventura.

Inicialmente, com a clientela previamente seleccionada nada fazia prever o que o futuro lhe iria trazer. Com o tempo, os amigos da ocasião, saturados, foram-se afastando, na procura de outras experiências. Pas­sou a desenvolver, então, uma actividade intensa, no desconhecido,

que a conduzia a presenças obsessivas, mas das quais necessitava para a sobrevivência.

Esgotada de viver e quase todos cansados dela, continuava a re­cordar, sentada num banco, na cozinha fria da casa onde habitava, na cidade cosmopolita para onde veio parar.

Para encobrir aparências e impedir que os vizinhos levantassem problemas, em breve mudaria de residência.

O vento, ainda frio, entrava por um vidro partido de uma janela, que a negligência ou o dinheiro não sobrava para o colocar.

Um rapaz, ainda no período da puerícia, alheio a tudo, rasgava cartas de um passado fantasista e fotografias de momentos relacionados com a sua mãe, que se entendesse, reprovaria, porque não deveriam ter surgido no calendário da sua existência e que se encontravam sem o necessário recato.

Para a criança, que via naquele ser toda a sua protecção, amor, bem estar e ventura, olhava a mãe, carinhosamente, na certeza de que os alimentos, as guloseimas e os brinquedos nunca faltariam.

Neste batalhar contínuo do passado com o presente, tocou o tele­fone, no Domingo de Páscoa. Uma voz do outro lado falou. O filho, por­que também queria atender, começou a chorar.

A resposta apareceu:

– Não! Hoje é um dia especial. Amanhã, volta a ligar…

Nota: – Este conto, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.