Não era este o tema que me propunha escrever, desta vez. Mas as notícias televisivas recentes, atirando para a abertura de telejornais os acontecimentos do “Prédio Coutinho”, bem como a imagem da cidadania vianense (nem as Festas de Nossa Senhora d’ Agonia mereceram tão grande destaque …), mexeram comigo! Lembro que, logo que apareceu a questão do prédio após a criação da Sociedade Polis, publiquei neste jornal uma crónica a discordar da maneira como começou a ser tratado esse assunto. Há uns 20 anos!

Foi preciso o advogado Dr. Vellozo Ferreira lembrar que nem os presos das cadeias são tratados assim, isto é, cortar aos perseverantes onze moradores (ou cerca disso), que se recusaram a abandonar o prédio, o fornecimento de água, luz, gás e comida. Esta teve de ser içada por corda para as respetivas famílias, numa arrepiante cena que me ficou gravada na memória, desde meados da década de 50 (em plena ditadura), em Ponte de Lima, com os presos do castelo-cadeia. Pior: o gesto brutal da Sociedade Polis pode ter concorrido para a morte de uma moradora octogenária (velha mudada é velha arrumada, segundo um ditado popular!) Note-se que não está em questão o comportamento do Eng.º José Maria Costa, Presidente da Câmara, ou do Eng.º Tiago Delgado, pessoas que conheço há muitos anos e classifico de educadas, humanas e corretas. Eles são vítimas das circunstâncias e, sobretudo, da génese desta encrenca.

Historiando: na década de 60, retornou a Viana do Castelo um ex-emigrante em terras africanas (Angola e Congo ex-belga), um homem rico, que veio para investir na sua terra e de sua mulher (Fernando e Rosa Coutinho). Era, acima de tudo, um investidor! Foi-lhe oferecida, então, pela própria Câmara Municipal de Viana do Castelo a oportunidade de realização de um negócio (poucos anos antes do “25 de Abril”), candidatando-se à compra do terreno camarário disponível a partir da demolição do antigo mercado. Assim aconteceu, mas, pelos vistos, com má sorte. De imediato, Fernando Coutinho entregou o assunto a um arquiteto do Porto (creio que, à época e em Viana do Castelo, nem arquitetos havia com prática profissional bastante). O Arquiteto, o investidor e a Câmara andaram com o processo em bolandas, até que o projeto do famigerado prédio foi aprovado com a exigência de ter essa dúzia de andares. É um pormenor, ao mesmo tempo, absurdo e estranho, e por isso importante para ser retido. Azar dos azares para o amaldiçoado prédio! Por essa altura, chega a “Revolução de Abril” de 1974 e todas as confusões que se lhe seguiram. Creio que em 1975, quando o prédio estava com essa dúzia de andares construída, mas em estrutura apenas, o Fernando Coutinho (que, apenas, conhecia de nome e da rua), pede-me, por intermédio de um amigo comum, que fosse a sua casa, na Rua do Gontim, pois desejava falar-me. Lá fui e o Fernando Coutinho não perdeu tempo para me contar o que o preocupava e o que ele achava que eu poderia fazer: falar com a Comissão de Moradores da freguesia de Santa Maria Maior, liderada pelo omnipresente Dr. Romeu de Sousa, advogado e líder do MDP/CDE. Além dele, apenas conhecia o Torres Gomes, funcionário da Segurança Social, que começou por pertencer ao PPM (monárquico) e se passou, depois, para o PS. Este era um homem moderado e cordato. A causa: essa dita comissão de moradores, mais propriamente o Dr. Romeu de Sousa, em entrevistas e comunicados, andava a agitar os vianenses sobre a ideia de demolir metade dos andares do “Edifício Jardim”. Claro que logo falei com o Torres Gomes, que se prontificou para abordar os membros da comissão ou, pelo menos, os mais influentes. Não recordo o que aconteceu, mas lembro que essa agitação foi passando e o prédio continuou a construir-se e, depois, a vender-se como limonada em romaria de verão. Até porque Viana do Castelo tinha uma enorme carência habitacional.

Por esses tempos, ficou para a história portuguesa que o Capitão revolucionário Otelo Saraiva de Carvalho se deslocou oficialmente à Suécia para se encontrar com Olof Palme (primeiro-ministro social-democrata mas da Internacional Socialista). O revolucionário Otelo teve a seguinte tirada: “Nós, em Portugal, estamos resolvidos a acabar com os ricos ao fim de poucos anos”. E Olof Palme retorquiu: “Nós, suecos, não pensamos assim. O nosso objetivo prioritário é acabar com a pobreza, com os pobres, não com os ricos”.

Ora, foi neste caldo de pensamento político e de crassa ignorância ideológica que o prédio do “Coutinho” foi edificado. Nesse terreno arável havia de aparecer a maldita praga da inveja popular.

(continua)