Pela sua baixa condição social, os artistas não tinham direito a entrar na sala pela mesma porta que os seus nobres espetadores. Eram servos, qualificados mas servos, e como tal, tinham que entrar pela porta de serviço. Com Beethoven, os nobres foram baixando a cabeça, talvez porque na França já rolaram algumas, mas especialmente porque ele acreditava na Liberté, Egalité, Fraternité.

Beethoven recebeu de Mozart e particularmente de Haydn, com quem estudou em Viena, a técnica de composição homofónico-melódica que carateriza o período clássico –neoclássico para as outras artes. Uma técnica que aliviava a sobrecarregada textura sonora do período barroco, primando, por oposição, a elaboração de uma única voz principal e reduzindo o acompanhamento ao mínimo compreensível. Essa nova moda fez com que se considerasse antiquada a música de J.S. Bach, mesmo pelo seu próprio filho Ph. Emanuel, e ficasse esquecido por um longo século.

Se compararmos o contraponto plano e simples de Haendel com o flexível contraponto múltiplo de Bach, ambos germânicos e nascidos no mesmo ano de 1685, perceberemos que a retórica teatral de Georg Friedrich resulta muitas vezes vácua e carente de sentido, algo que nunca acontece com Johann Sebastian, pleno de imaginação e expressão. Mesmo quando escreve fluentes e equilibradas melodias num estilo de variação constante, as partes subordinadas nunca perdem interesse. As ideias de Bach prepararam o caminho para o novo período, mas na altura ninguém percebeu isso. Hoje, Bach é eterno e aqueles que o acusavam de antiquado foram esquecidos.

Beethoven, no final do classicismo, desempenha um papel similar ao de Bach no final do barroco, preparando o caminho para o novo período, o Romantismo. Haydn já começara a revalorizar as partes secundárias e Beethoven preenche-as de sentido e profundidade expressiva, transformando as sinfonias numa poderosa experiência emocional. O estilo de Haydn e Mozart alcança em Beethoven uma expressão sublime que vai para além da técnica de composição utilizada. As ideias de Beethoven, assim como as de Bach, é que fazem transcender a sua música. Em síntese, era isso o que outro grande inovador, Arnold Schoenberg, transmitia aos seus alunos.

A técnica é uma simples ferramenta ao serviço das ideias e vai mudando com a evolução do conhecimento humano. Assim, a física newtoniana, com a lei universal da gravitação e as leis do movimento, aparece ao mesmo tempo que o sistema tonal na música, o que substitui definitivamente toda a teoria modal; e a mecânica quântica surge ao mesmo tempo que Schoenberg desenvolve a pantonalidade, mal chamada de atonalidade pelos seus detratores. O inequívoco estilo de Beethoven, utiliza o conhecimento técnico do seu tempo para expressar as ideias profundas que a revolução francesa trouxera à superfície: Liberté, Egalité, Fraternité. Livrou-se de toda e qualquer tutela, sendo o primeiro compositor a negociar livremente com os editores os direitos de autor das suas obras. Essas ideias, e não o estilo ou a técnica de composição, é que vão influenciar todos os compositores do século XIX, tanto os mais românticos, de Berlioz a Wagner, como os mais clássicos, de Mendelssohn a Brahms. Todos são seguidores das ideias de Beethoven.

Numa ocasião, Beethoven, recebeu uma carta do seu irmão Johann que assinava como “proprietário de terrenos”. Ele respondeu-lhe assinando como “proprietário de um cérebro”. Um cérebro que goza de uma grande popularidade pelas ideias que nos legou. A dignidade e o cérebro propriedade dum génio.

 

Rudesindo Soutelo

da Academia Galega da Língua Portuguesa.
Compositor e Mestre em Educação Artística e Ensino de Música