Com o envelhecimento demográfico, o envelhecimento da mão-de-obra e os processos de reestruturação industrial decorrentes do capitalismo globalizado e da transformação para uma economia de serviços, os sistemas de emprego têm vindo a apresentar, ciclicamente, crises mais ou menos profundas que se manifestam no aumento do desemprego e na generalização de precaridades e descontinuidades nas relações laborais. O desemprego é hoje incontornável, particularmente nas sociedades ocidentais contemporâneas, e continua a ser um dos maiores desafios das sociedades industrializadas.

Com efeito, no quadro de uma economia global regida pela lógica financeira da rendibilidade a curto prazo, é crescente a pressão para flexibilizar o trabalho. Esta exigência conduz a um cenário em que as formas precárias de emprego aumentam e o emprego deixa de ser entendido como um direito para se tornar um recurso ao serviço da competitividade.

Partindo do pressuposto de que o emprego está no centro de profundas transformações decorrentes do sistema capitalista, a perda do mesmo tem importantes consequências para os trabalhadores. Estas são tendencialmente de carácter negativo e relacionam-se com uma maior instabilidade na vida quotidiana e com a fragmentação de projetos pessoais e profissionais que colocam os indivíduos numa situação de risco social e vulnerabilidade aumentada.

Quando a perda de emprego ocorre numa fase tardia da vida ativa, os trabalhadores não só se encontram no desemprego como perdem propriedades conotadas com a empregabilidade. Assim, no caso particular dos trabalhadores mais velhos (indivíduos com 55 e mais anos), a investigação sugere consequências particularmente gravosas, estando a idade associada aos efeitos mais adversos relativamente à probabilidade de reingresso no mercado de trabalho. Acumulam frequentemente uma série de elementos intrínsecos de vulnerabilidade associados à idade, baixos níveis de escolaridade, sobre-especialização, longos vínculos com uma mesma entidade laboral aos quais se juntam frequentemente fatores de vulnerabilidade extrínsecos – taxas de desemprego elevadas, estagnação do mercado de trabalho, discriminação etária por parte das entidades empregadoras, políticas sociais de emprego insuficientes e/ou desadequadas.

É, por isso, fundamental aprofundar a compreensão de como os indivíduos vivem as suas ‘vidas em mudança’ em contextos cada vez mais instáveis, conscientes de que aqueles com ‘fracos recursos’ vivenciam a condição de desemprego com uma carga dramática mais intensa do que os que possuem recursos mais fortes e diversificados.

Neste sentido, cabe às Políticas Sociais, enquanto Políticas Públicas, assegurar que trajetórias de vida desfavorecidas, muitas vezes iniciadas na família, continuadas na escola e reforçadas depois no mercado de trabalho, não são agravadas através da debilidade, insuficiência ou desadequação dos mecanismos públicos de proteção. Estes devem, sim, promover uma verdadeira equidade de oportunidades entre os cidadãos no sentido do bem-estar individual e societal.

Raquel Gonçalves

Gerontóloga Social/Doutorada em Política Social