Tenho por (bom e inalienável) hábito dizer ou escrever o que, em consciência, penso, acredito e defendo. Nunca me auto-impus balizas de censura por conveniência, medo ou receios de qualquer espécie, nem tampouco aceito ingerências que visem condicionar, limitar ou inquinar a minha opinião e a decorrente partilha desta. Mas confesso que hesitei em avançar com este tema. Não porque não lhe reconheça o sentido de oportunidade que o momento concede – pois reconheço –, mas porque não desejo contribuir com um fio de palha que seja para alimentar uma fogueira que já arde suficientemente alto. Mas não resisto a fazê-lo. No actual contexto, o silêncio, por mais confortável e conveniente que seja, não é de ouro. É cúmplice! É covarde! É uma não opção…

Não há forma de escamotear o que é já uma realidade evidente, preocupante e, para já, imutável. Portugal resistiu estoicamente, enquanto pôde, à imparável escalada internacional dos movimentos políticos e sociais de génese nacionalista, populista e anti-sistema, que encontraram no desânimo generalizado e no descrédito institucional terreno fértil para florescer, e na retórica primária, utópica e incendiária o seu mais perfeito adubo. Éramos a feliz excepção que confirmava a triste regra, e vivíamos em contraciclo com o resto do mundo (Europa incluída), convencidos de que a muralha edificada em 74 seria suficientemente sólida para manter tais movimentos “do lado de lá”. Não era, obviamente. Era apenas ingenuidade nossa.

Finalmente sucumbimos – era só uma questão de tempo –, e vimos entrar, em estreia absoluta, na casa maior da democracia, o primeiro partido português assumidamente herdeiro do pior do legado que o regime fascista deixou, fazendo de intervenção declaradamente anti-sistema, a pender para o populista, o seu exclusivo modus operandi. Embora com representação mínima, nasce, para a política portuguesa, o “Chega!”, e com ele o seu mentor, o ex-PSD André Ventura, figura cada vez mais central no espectro político português. Espécie de versão híbrida de Salazar, Trump e Bolsonaro (mas infinitamente mais inteligente que estes últimos), Ventura é produto do actual contexto, sendo mais um sintoma ou consequência do que causa ou princípio do que quer que seja.

Como qualquer populista que se preze, Ventura não fala a verdade, mas fala grosso. Não tem razão, mas grita como se tivesse. E apresenta soluções básicas e imediatas para problemas complexos e crónicos, mesmo sabendo que é pura retórica estéril e inconsequente, sem qualquer hipótese de transferência para a realidade. Mas nos dias que correm, e por mais imbecil que possa parecer, isso é verdadeira música para os ouvidos da horda de fãs que o seguem incondicional e acriticamente, e, pior, o idolatram como que se de um messias se tratasse. Para estes, falar alto e grosso, ainda que seja a mais escabrosa barbaridade, equivale a falar verdade e a ter a razão que a ele sobra, e que falta a todos os outros. Vale 1% do eleitorado, mas presume valer o seu peso em ouro, quando o que lhe sobra, na verdade, é apenas lata.
Sabemos ao que vem. Vimo-lo no primeiro “Prós e Contras” pós-legislativas. Interrompe com provocações, vocifera banalidades, vitimiza-se perante um simples olhar de reprovação.

A discussão política de café, retórica, básica, rude e preconceituosa entrará no hemiciclo como entrou no programa: de rompante e sem pedir licença. Provocará à esquerda e à direita, esperando obter respostas ou reacções que usará para provar aos seus que é, efectivamente, um anti-sistema de puro sangue. E vai crescer com isso. O silêncio, aí sim, será a mãe de todas as virtudes. O ruído, a ração que o fará crescer. Como vêem, eu já começo mal…