A vinda do Papa Francisco à janela do seu escritório, no Palácio Apostólico, no último domingo, 18 de abril, para a recitação do Regina Coeli e para a respetiva meditação teve um significado especial. Efetivamente, a pandemia confinou o Papa à Biblioteca do Palácio Apostólico nos domingos anteriores, podendo estes momentos de oração ser acompanhados apenas através dos meios de comunicação social. Talvez, por isso, não estranhemos que, entusiasmado, o Papa tenha dito aos fiéis, no último domingo, que sentiu falta de ver a “multidão” (a possível nestes tempos) na Praça de São Pedro. Creio que os aplausos empolgados dos peregrinos permitiram intuir que este sentimento de um certo vazio era recíproco: também os fiéis tinham saudades de ver ali o Papa.

Possivelmente, só esta cena que acabo de descrever serviria para elucidar como esta pandemia tem mostrado, a par de uma preciosa utilização dos meios digitais, que o ser humano só o é verdadeiramente numa proximidade que também é necessariamente física. Contudo, as palavras pronunciadas, depois, pelo Papa tornaram ainda mais claro aquilo que esta troca de olhares entre Francisco e os que ali estavam presentes já permitia compreender.

Partindo, como sempre, da Liturgia da Palavra escutada na celebração de domingo, e, em concreto, das figuras dos discípulos de Emaús, o Santo Padre falou da importância de observarmos aquelas pessoas e aquelas coisas que todos os dias nos envolvem. E explicitou: importa ver atentamente e não apenas olhar de forma fugaz. “Vernão é apenas olhar, é mais, requer também a intenção, a vontade. É por isso que é um dos verbos do amor. A mãe e o pai veem o filho, os apaixonados veem-se um ao outro; o bom médico vê o paciente com atenção”, afirmou.

Julgo que estas são palavras interpelantes e inspiradoras, sobretudo quando tantos se perguntam, legitimamente, sobre aquilo que este tempo tão duro nos poderá ensinar. Depois de tanto tempo em que fomos (e, em grande parte, ainda somos) privados de ver quem ou o que mais gostamos/ precisamos, talvez este seja um tempo oportuno para empreender uma purificação do nosso olhar.

Parece-me, neste sentido, que há uma questão fundamental e primeira: que(m) vemos? Seria interessante, ao fim do dia, fazer uma espécie de exame ao nosso olhar, a partir do coração. Todos os dias, sem nos darmos conta, são tantos os rostos, os sítios, as coisas que passam diante dos nossos olhos. Mas o que vemos? Ou quem vemos? Creio que era isto que o Papa nos queria dizer, em primeiro lugar, nomeadamente ao citar alguns exemplos concretos: que a cada dia podemos ficar sempre mais enriquecidos com aquilo e aqueles que vemos se sobre eles detivermos o nosso olhar. Mas atenção! Para que este exercício seja honesto é bem possível que haja aqui um misto de riqueza e de pobreza, quando pensamos no que vemos. É que aquilo que importa ver não é apenas o que gostamos ou o que nos apraz, mas aquilo que precisa de nos entrar pelos olhos, ainda que tantas vezes nos desacomode ou desinstale. Compreendo bem que tantos fujam, por uma questão de sensibilidade, a imagens mais duras ou cruéis, mas que isso nunca seja uma justificação para que simplesmente deixemos de nos afetar com o mal em que todos os dias nos sentimos mergulhados, virando simplesmente a cara para o lado.

Ligada a esta questão, surge uma segunda, verdadeiramente indissociável. Como vemos? Não basta, de facto, olhar, nem sequer parar a olhar se apenas quisermos ver a realidade segundo a nossa lente e não tal e qual como ela é. Podemos não desviar o olhar, mas fixarmo-nos nas coisas e, sobretudo, nas pessoas vendo apenas aquilo que nos interessa e que, tantas vezes, não coincide com o que interessa efetivamente: olhamos para justificar a nossa indiferença diante de situações incómodas ou, então, para apenas julgar ou mesmo condenar, vendo – repito – segundo a nossa lente. Na minha não muito longa vida sacerdotal, esta tem sido uma das mais belas lições que o confessionário me tem dado. Tantas vezes, segundo os meus critérios, me sentiria tentado a julgar esta pessoa ou aquela situação, mas, escutando-a, e, por isso, vendo-a por dentro, percebo que há um contexto, uma razão para que isto aconteça desta ou daquela forma.

No último domingo, regressei a casa feliz por ver e escutar novamente o Papa, mas sobretudo porque o Santo Padre me desafiou a construir todos os dias uma cultura do olhar – a mim e a todos, crentes e não crentes. Um olhar que seja sempre e em todas as circunstâncias sinónimo de atenção, de gratidão, de preocupação, de afeto, de ternura, de vida dada e partilhada. Num tempo em que até as máscaras, deixando quase apenas a nu os olhos, mostram a sua importância, façamos com que quando as tirarmos não caia, com elas, o desejo de ver tudo e todos sempre cada vez mais e melhor.

Pe. Renato Oliveira