Em tempos idos, nos anos cinquenta, creio que organizado pelo Clube Fluvial Vianense, ia realizar-se uma prova de natação denominada, talvez, “Descida do Rio Lima“. O percurso era longo, largada das Ínsuas, mais de 1 Km. a montante da Ponte Eiffel e chegada frente à Doca Comercial, lá no fundo, a caminho da barra.

Eufórico, vou ter com o Quim.

– Pá, vais fazer a prova.

– Que prova?

Contei-lhe o que sabia.

– Nem pensar, já não nado há muito tempo. Não aguento. Mesmo que quisesse, não posso treinar. Ando muito cansado do trabalho.

Durante dois ou três dias, à noite, no nosso treino de remo, no bote, tipo gamela, a que chamávamos “Mouca” (não ouvia os nossos impropérios, quando nos zangávamos no treino), fui aumentando de entusiasmo para convencer o Quim.

– Mas, nem posso treinar. De dia trabalho, à noite não quero ir para o rio nadar.

– Mas, não é preciso treino no rio. É tudo em terra. Vamos deixar a Mouca durante quinze dias, até à prova.

– Mas, então, como será o treino?

Conversámos e decidimos o seguinte:

– Todas as noites, saímos da estátua do Fagundes, no jardim, em marcha acelerada. Vamos até ao Campo d’Agonia. Aí, em frente à Zefa Carqueja, uma sessão dupla de 12 flexões de pernas e 12 flexões de braços. Continuamos até ao adro da igreja. Num ramo de uma árvore, 2 séries de 12 elevações. De seguida, sempre em marcha acelerada, seguimos até ao campo do Vianense, continuando depois ao longo da linha do caminho de ferro até ao Límia Parque e, finalmente, percorremos todo o jardim até ao ponto de partida. Aí, nova sessão dupla de flexões de braços e pernas e partida para uma segunda volta, com o mesmo programa da primeira.

Custou, mas ficou convencido.

Iniciámos os treinos com afinco.

No percurso, muitas vezes, para acompanhá-lo, tinha que correr ou, então, pedir-lhe que parasse um pouco. Eu estava estourado, ele, ansioso por terminar o treino.

Entretanto, começámos os preparativos logísticos para o dia da prova.

Pensámos imitar o Baptista Pereira, que se besuntou de uma gordura específica para suportar o frio das águas geladas do Canal da Mancha.

No nosso caso, era para impressionar os adversários.

E que gordura? Vaselina? Banha de porco? Manteiga? Não, era muito caro.

Iríamos ao Botelho, pedir ao Sr. Manuel que nos arranjasse massa consistente.

Eu iria acompanhar a prova, como apoiante do Quim, na Mouca.

Alguém nos quis acompanhar. Era um homem adulto, muito cordial, com quem convivíamos no cais do Eduardo. Vivia de biscates. Tanto era ajudante de trolha, como carregava e descarregava louça de barro no Beco do Caxuxo, ou, com um carro de mão, distribuía mercearias, ou ainda lavava barcos que estavam à guarda do Sr. Eduardo.

Creio que poucos saberiam o seu nome. Era o Bernardino, mas todos o tratavam por Espião. Tinha um defeito na vista. Um dos olhos apontava para a esquerda e o outro para a direita.

Fumava Provisórios ou Definitivos. Em dias mais folgados, fumava Paris ou Três Vintes (20 20 20), comprados avulso, 3 por 5 tostões, ou 4 por 6 tostões, quer no café Escondidinho do meu Tio Idílio (a quem, erradamente, toda a gente chamava Ilídio), quer no quiosque do Mercado Municipal, gerido pelo Sacristão da Matriz.

Saudámos, com alegria, a companhia do Espião.

No percurso até ao local da partida, o Quim comeu um reforço constituído por 2 bananas esmagadas misturadas com mel e bebeu uma Laranjina C. O Espião incentivava o Quim, dando-lhe palmadas nas costas e nos ombros. Vais ganhar, vais ganhar!

 

A prova era longa e com muitos nadadores. Ao passar a ponte, já havia grande separação entre concorrentes. O Quim estava no grupo da frente e aí se manteve até ao final.

Aproxima-se a chegada.

Há uma sineta que toca uma vez, segunda vez, terceira… quarta vez, chegou o Quim! Os primeiros eram nadadores do Porto e da Póvoa, creio.

Não ganhou, mas, que importa… Grande alegria, a nossa. Tínhamos cumprido mais um dos nossos sonhos.

Aproximámos a Mouca do Quim, para o recolher. Ele lança as mãos ao bordo, bem alto, da Mouca e, num único impulso, salta para a embarcação. Que força fantástica.

Estava frio. Secou-se numa toalha e embrulhou-se num cobertor que tínhamos levado.

Não pudemos dar-lhe o reforço alimentar. Durante a prova, o Espião comera as 2 sandes de queijo e marmelada e bebera a outra Laranjina C e o Pirolito.

Não houve qualquer reparo por parte do Quim.

O Espião remou até ao cais do Eduardo.

Aí chegados, várias pessoas e amigos aplaudem e cumprimentam o Quim. Recordo o Sr. Eduardo, o Garniza, pescador profissional do rio, o Zé Padre, exímio velejador, o Zé da Avenida, marítimo da Marinha Mercante, o Moita, o Mudo.

Que saudades, Quim, que saudades eu tenho de ti.

Fernando Maciel