O primeiro avistamento, em território nacional, em mais de 170 anos, de um urso pardo selvagem, e a audição de “Joe” Berardo na Comissão Parlamentar de Inquérito à recapitalização da CGD, encerram mais pontos em comum do que o expectável à primeira vista. Desde logo, porque são duas situações absolutamente insólitas – a segunda a tender para o bizarro… – , embora uma simbolize a resiliência da natureza, e a outra revele o pior da natureza humana: a ganância cega e infinita. Depois, porque ambas envolvem ursos na construção da trama. Por último, porque os dois apreciam uma boa dose de mel de produção alheia. O urso, no sentido literal; o Comendador, no plano metafórico. Em ambos os casos, igualmente doce…

Não, não estou a insinuar que o mui distinto “Joe Berardo” seja, na verdade, um urso “parvo” (apetece-me, mas resisto a fazê-lo). É certo que é calculista, ardiloso e visceralmente desonesto, e não tem quaisquer escrúpulos em sacar e manter o que a ele não pertence, contribuindo para a ruína de terceiros. Mas não é, de todo, um urso. Ursos somos nós, que fizemos figura do bicho enquanto assistíamos, tão incrédulos quanto impotentes, às suas desconcertantes, provocatórias e surreais declarações, que na verdade o expuseram ao ridículo – um ridículo dolorosamente inconsequente e demasiado caro, – e que, simultaneamente, reduziram os deputados à condição de bobos de uma corte incrédula. Ursos, ursos, ursos! Ursos sim, por concedermos permissão tácita para que tão triste espectáculo acontecesse na casa maior da democracia, não obstante o inglório esforço despendido por todos os deputados presentes – cujo determinado desempenho devo reconhecer, da esquerda à direita. Por esta e por outras semelhantes, somos e estamos o que merecemos ser e estar: pobres.
O rombo financeiro que lhe é imputado (1000M€), e que o Estado (leia-se: nós) injectou na banca para salvar o sector da sua própria (e cúmplice) irresponsabilidade, tem um peso determinante na sustentabilidade – ou na falta dela – das contas do país. 1000M€!! Milhões suficientes para construir 6 unidades hospitalares de referência. Ou concretizar o novo aeroporto de Lisboa, necessário como pão para a boca, protelado indefinidamente por falta de financiamento. Ou para devolver o tempo de serviço abusivamente sonegado aos FP no período de congelamento de carreiras. Mas aí, nem um desses milhões foi investido. Nem aí, nem em lado algum. Foi derretido, sem o mínimo retorno, para caucionar os desmandos de quem, como Berardo, nada tem, nem deve nada a ninguém. Coitadinho…

O que aconteceu não é inócuo, pois simboliza a vitória do chico-espertismo sobre as mais básicas normas de decoro e, sobretudo, sobre o dever de respeito pela lei e pelas instituições representativas a que qualquer português está obrigado. O que aconteceu foi um golpe perpetrado à nação por um dos seus “filhos maiores”. Um filho feito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique por lhe ser reconhecida “a prestação de serviços relevantes a Portugal, no país ou no estrangeiro, ou serviços na expansão da cultura portuguesa, da sua História e dos seus valores”. Um filho a quem assistiria, mais do que a qualquer um de nós, um especial dever de moral, de decoro e de respeito para com a pátria que lhe impôs a suas mais altas insígnias, mas que foi, ironicamente, um dos seus maiores traidores. Retirem-se-lhe, de imediato, tão elevadas honras, e declarem-no, sem delongas ou hesitações, persona non grata.

Berardo fez o que fez pela mesma razão por que um cão lambe as suas zonas íntimas: porque pode. E pode, porque sabe que escapará impune. Simples.
Quo vadis, ditosa pátria?