Se alguma vez existiu necessidade de demonstrar o nosso lado mais humanitário, penso que esse momento é agora, a realidade em que vivemos hoje. Enfrentamos dias em que todo o lodo da sociedade está, finalmente, exposto. Todos os défices humanitários e de empatia que tentamos, como sociedade, erradicar estão agora, mais do que nunca, à luz do dia.

Do meu ponto de vista é legítimo dizer que, devido à pandemia que enfrentamos, estamos a entrar nos “loucos anos 20” do século XXI, onde encontramos uma cada vez mais intensa atenção a causas no espetro das injustiças sociais e da discriminação racial. Porém, é importante ter em conta o efeito contraproducente que, vergonhosamente, estas importantes lutas podem e estão a originar. Com “efeito contraproducente” pretendo referir a força que as ideias totalitaristas/fascistas estão a ganhar, sendo esta a resposta do conservadorismo às reivindicações.

Um exemplo deste efeito é a resposta aos movimentos antirracistas das últimas semanas: É relevante lembrar que o erro está na crença da supremacia de uma raça em relação a outra, independentemente de qual é x e qual é y.

O erro é a luta “humano contra humano”. No entanto, parece-me inaceitável comparar realidades incomparáveis, e é aqui que entra o racismo inverso. Sem qualquer intuito de descredibilizar qualquer tipo de discriminação racial é, quanto a mim, algo caricato a necessidade que se tem verificado, de, por nos depararmos com inúmeros casos vergonhosos de violência contra a população negra, pretender-se apresentar um cenário em que aqueles que nunca sofreram na pele atos de xenofobia são, também, alvo de racismo. Assim, é importante ter em mente que não são realidades semelhantes e o tema não é uma competição de “que raça anda a sofrer mais”, mas sim, algo a ser, finalmente, combatido.

É visível, também, a tendência para o encobrimento da existência da discriminação por parte do Velho Continente, que se considera humanitariamente muito evoluído. A meu ver, é mais do que alarmante a facilidade com que, por exemplo, em Portugal, caímos na tentação de achar que o racismo existe apenas nos Estados Unidos da América e não na porta ao nosso lado.

Após uma boa análise à Europa, talvez encontremos casos em que o indivíduo x não conseguiu o cargo na empresa porque é negro ou porque é chinês (situações que se colocam por debaixo do tapete, visto que não são facilmente provadas). Talvez até seja verdade dizer que, grande parte das vezes, é um racismo encoberto, fisicamente menos violento, mas tão grave que deve ser tratado com a mesma severidade.

Em suma, é importantíssimo não deixarmos morrer esta luta que, agora mais do que nunca, estamos a agarrar com unhas e dentes. É necessário ter em atenção os pormenores e analisar meticulosamente os discursos que, cada vez com mais intensidade, nos cercam: discursos altamente demagógicos, falaciosos e de incentivo à supremacia racial e ao totalitarismo político. É, igualmente, altura de transbordar empatia e sentido humanitário e, agora mais do que nunca, reaprender a ser humano.