Como “recordar é viver”, aqui recordo o “Mário Sapateiro”, como era conhecido e que foi guarda nos Estaleiros Navais de Viana e nos tempos livres “Bate Solas”.

Todos admiravam as suas qualidades e especialmente a sua bondade. Era um homem que com nada se amedrontava, honesto, honrado e foi também um bom marido.

E como os seus dotes também o levaram a ser “poeta”, escreveu algumas quadras, que depois as transmitia nas suas “cantaroladas” em passeios ou em convívio com os amigos. Aqui fica uma delas.

Em menino eu brinquei para crescer
Como outrora no meu tempo de criança
Hoje eu sinto esta vontade de dizer
Porque é um sentido de lembrança.

Ai que saudades tenho eu da minha rua
Que ela é minha e tua
Ai que saudades tenho da casa onde nasci
Da rua onde vivi
Ai que saudades
Ai que saudades tenho eu do que é mais belo
Que é o Campo e o Castelo
Ai que saudades tenho do Jardim D. Fernando
Onde em criança eu brincava
Ai que saudades

Hoje eu lembro os meus tempos de rapaz
E os amigos espalhados pelo mundo
São lembranças que o tempo sempre nos traz
De quem tem um sentido mais profundo

Ai que saudades tenho da antiga Viana
Da sua bela tricana
Ai que saudades
Ai que saudades tenho da antiga Ribeira
Da sua gente altaneira
Ai que saudades
Ai que saudades tenho eu do Rio Lima
Navegar rio acima
Ai que saudades
Ai que saudades tenho de Santa Luzia
Da Senhora d`Agonia
Ai que saudades.

Também eu, Mário, tenho saudades de tanta coisa da minha linda cidade. Por exemplo, daquela estátua, creio, representa Viana, outrora colocada no Largo de Altamira (agora Largo Amadeu Costa), a brotar água, mas hoje, com a bica seca, sem vida, reside no Jardim Público. Saudade, também, de ver o cais da minha Ribeira cheio de azáfama, mulheres lavando a sardinha na lingueta, vinda dos pequenos barcos e as treineiras descarregando o seu pescado, num local hoje sem movimento, vendo-se apenas, espalhados no cais, apetrechos de pesca.

E saudades ainda de ver aqueles “meninos”, frente à Escola da Avenida “urinando” também por uma bica, sem se importarem de quem passava.

Finalmente, aquela rotunda, no Campo da Agonia, onde “mora” o monumento ao Pescador. Hoje é uma taça quase sempre sem água, e que para estar cheia é necessário fazê-lo com uma mangeira. À noite, quase não é visível o que ali está!…

Muitas coisas havia para lembrar e que permanecem no nosso pensamento!… Mas como “recordar é viver”, aqui ficam estas singelas palavras, trazendo à estampa, o “Mário Sapateiro”, de seu nome completo Mário José Miranda.
“Saudades, quem as não tem…”.

Otelo Sousa

Foto: Olhar Viana