O que hoje aqui vos trago não é algo que tenha a ver com a minha vivência em Viana do Castelo, enquanto ali desempenhei funções, mas sim com o que vou lendo em papéis antigos e que, no caso em apreço, se encontra relacionado com Viana.

Durante séculos a quase totalidade das guarnições dos navios da Coroa, normalmente a marinhagem, era constituída por marítimos recrutados à força, entre as tripulações dos navios do comércio e da pesca, marítimos esses que, na linguagem da época eram designados como “presos para o serviço da Coroa”, enquanto que, por outras vezes, se recorria para o efeito a condenados a penas de prisão ou de degredo, sendo que o recrutamento incidia também nas grandes cidades, em indivíduos que vestissem como homens do mar ou que “aparentassem ser marítimos”.

O caso em apreço ocorreu por 1797 e tem a particularidade de se conhecer a identidade dos recrutados, o que muito raramente sucedia pois estes, por via de regra, só estavam interessados no número de arrebanhados (outro termo igualmente utilizado para identificar tais marítimos) recebendo em função desse número.

Deu-se o caso que, no Porto, havendo necessidade de guarnecer os navios da Coroa ali estacionados o Intendente da Marinha do Porto requereu que, dos vários portos do Norte, fossem enviados marítimos para esse efeito, o documento em que tal ordem é comunicada existe no Arquivo Histórico Ultramarino, Maços do Reino, caixa 354 pasta 10.

Tal tarefa, em Viana do Castelo, coube ao Juiz de Fora, João António Pereira Pinto de Araújo que, em carta de 23 de fevereiro de 1797, comunicou para o Intendente da Marinha a identidade dos recrutados, 11 de Viana do Castelo, sete de Setúbal e três de Peniche, não indicando, no entanto, qual o critério utilizado para a seleção, sendo admissível considerar que tanto os de Setúbal, como os de Peniche, pertencessem às guarnições de navios daquelas localidades, eventualmente estacionadas há algum tempo em Viana, quer por necessidade de reparação, quer por dificuldades comerciais ou até por terem guarnições superiores às das restantes embarcações no porto.

Na carta em causa o Juiz refere ainda que, para além dos indicados, retivera mais 14 marinheiros de Viana do Castelo (cuja identidade não é indicada) para integrar a guarnição da escuna Leal e Invicta Viana, escuna essa recentemente mandada construir e que fora oferecida, por alguns comerciantes de Viana do Castelo, à Coroa para integrar a Armada Real, com o objetivo de combater os corsários, nomeadamente franceses, que chegavam a apresar navios e embarcações adentro da barra de Viana do Castelo.

A identidade dos tripulantes naturais de Viana do Castelo remetidos, sob prisão, para a cidade do Porto, era a seguinte: “José da Lomba Pacheco, José Gomes, Tomás da Lomba, Sebastião Gonçalves, Custódio da Lomba, João Cutilada, José da Lomba, João José Viana, António Gonçalves, João Antunes Coelho e Joaquim José”.

Atente -se que, tal qual como sucedia quando estive em Viana do Castelo, eram vários os marítimos de apelido Lomba, apelido esse originário da Galiza, que se encontravam envolvidos nas atividades da pesca.

Carlos A. E. Gomes

Nota: Não é de estranhar que, com estes tipos de recrutamento, na ocorrência de um qualquer acidente muitos destes marítimos, como frequentemente sucedia, aproveitassem a circunstância para desaparecer. No que concerne à escuna Leal e Invicta Viana (também referida como sendo lugre) parte do seu historial foi, há uns tempos atrás, publicado nos Cadernos Vianenses.