Já lá vão uns anos! Em viagens e mais viagens de comboio até Viana, atravessava dia após dia, ano após ano a Ponte Eiffel, que por estes dias faz 140 anos, que me levava à Escola Técnica, no Jardim D. Fernando, em Viana. Partia de Barroselas e com paragens em duas estações até chegar a Viana, tinha o Rio Lima sempre à vista, naquela travessia que me deixava na bela Estação ao topo da magistral Avenida, ainda hoje o recordo.

Relembro com alguma nostalgia aqueles dias em que casualmente ocorriam alguns “feriados” – aulas que não se efectuavam – na Escola. O jardim público era local privilegiado de encontro de muitos de nós, com grandes passeatas, juntamente com os colegas do Liceu – costume da época – hoje em desuso, usufruindo dali, a beleza do estuário e da paisagem ao fundo, na margem esquerda, do “nosso” maravilhoso Rio Lima.

Naquele tempo apreciavam-se os barquinhos de pesca à lampreia, ciclóstomo extremamente apreciado na culinária da época, na nossa região e fora dela, em todo o País. Sempre puxando os barcos, os pescadores, com a ajuda de uma fisga, enterravam – na na água e simultaneamente na areia. Por vezes na própria presa, era o culminar da faina.

Por outro lado, havia as redes que os pescadores colocavam ao cair da tarde junto à ponte, formando um cerco com os barcos em linha… Hoje já não se vê este tipo de bloqueio, talvez por interdição. Ignoro. Já decorreram uns bons cinquenta anos!…

A minha passagem no comboio todos os dias, permitia-nos apreciar, a mim e aos meus colegas, o desenrolar destes acontecimentos nas suas lides e labores da pesca.

Nosso Rio Lima foi sempre uma predilecção para os vianenses. É verdade que ao espraiar os nossos olhos naquele estuário, sentimos a calma que a paisagem nos oferece, conjuntamente com a ponte e o espraiar da foz no Atlântico. Uma beleza rara, incontornável, que encanta, que fascina os mais incautos, desde os nativos orgulhosos de possuírem tal formosura quase inigualável no mundo e que é apreciada especialmente por quem nos visita.

O rio sofreu, entretanto, algumas alterações pontuais. Nele foi construída uma Marina na margem citadina, hoje repleta de barcos de recreio, iates de nacionais e de estrangeiros, que entram rio acima, atracam e aproveitam para visitar a cidade. O complexo da Marina “Viana Cais” agora com PUB’s e um Ginásio ocupou-lhe algum espaço, da parte do novo porto de mar, construído na margem esquerda, junto à Praia do Cabedelo, em Darque, encostam ali desde transatlânticos ta barcos comerciais de todo o género de mercadorias de diversa, para a Europa e para o Mundo.

Mais a Norte, havia a seca do bacalhau, situada a nascente da ponte Eiffel, na margem esquerda, no lugar do Cais Novo, em Darque. Ali chegava este peixe oriundo dos mares da Terra Nova, Gronelândia, ao cuidado de mulheres que a Empresa de Pesca de Viana empregava para o efeito. Para isso, tinham contribuído os pescadores que a Empresa de Pescas de Viana dispunha, como o Senhor dos Mareantes, o Sta. Maria Madalena, o S. Victor e outros, que acostavam na antiga doca de Viana. Também constituíam uma atracção turística quando regressados do labor, da faina e atracavam naquela doca.

Também, Rio Lima acima, era vulgar ver-se, na margem direita, pescadores à linha, hábitos que, entretanto, se foram perdendo e que eram apreciados pelos passantes. Ainda bem jovem, relembro os rapazes da Ribeira que aprendiam a nadar, deliciando-se na quietude das águas do “nosso” Rio Lima, ora juntinho ao cais, quer do rio acima quer na doca.

Hoje, existe uma praia fluvial a norte da ponte Eiffel, ao lado da antiga Praça de Touros e entre esta e o Clube de Ténis, uma pequena marina para barcos mais modestos, pertencentes na sua maioria a vianenses que se dedicam à pesca e passeios no rio.

A evolução dos tempos fez com que todas estas transformações se fizessem e dessem lugar a um relativo estreitamento do estuário do Rio Lima, sobretudo na margem direita ampliou para sul.

O Rio Lima, é também uma espécie de fronteira entre freguesias vizinhas. O seu leito separa Lanheses das Terras de Geraz, Santa Marta de Portuzelo de Vila Franca, Meadela de Darque e na sua foz, a cidade do pinhal do Cabedelo e outras mais freguesias a Norte, até Ponte de Lima.

No entanto, é nele, Rio “Lethes”, que outrora os Greco-Romanos o baptizaram de rio do esquecimento, pois ao atravessar as suas margens, ali no lugar da Passagem, junto a Vitorino das Donas, tudo se olvidava para quem o fizesse.

Hoje nada esquecemos deste Rio Lima, das suas belas e bucólicas paisagens, da sua perfeição por excelência, que tanto nos orgulhamos e prezamos e de quem não nos separamos facilmente… É como dizia o poeta: – “Depois de tudo o que já vi, o que na alma mais fundo senti, é que quanto mais longe estou, mais perto estás!” – (Castro Gil)

É verdade que, em qualquer parte do mundo sempre nos vem à memória aquela paisagem magnífica, quer de cima da ponte, quer do jardim marginal. Distante, o nosso subconsciente traz-nos de imediato à memória toda aquela imensidão de água que nos habituamos a ver, desde criança e que não nos escapa ao espírito. A sua foz junto ao Atlântico, as margens de um lado e de outro, a cidade de Viana do Castelo por quem nutrimos muita amizade.

Leandro Matos

(Foto: J. Rego)