Caros leitores, estas semanas em que me ausentei, tive a oportunidade de viajar um pouco. Para mim, viajar não se trata apenas do ato de sair do lugar, mas de uma belíssima oportunidade para abrir os olhos para outros mundos. O que, claro, me fez pensar sobre uma questão – o bicho do Covid veio para comer a nossa saúde física, e contra isso não há dúvidas. Mas anda aí outro bicho, que cresceu em tamanho, e que se alimenta a olhos vistos da nossa saúde emocional e mental. Curiosamente, sobre este, poucos se preocupam.

Enquanto estive no Reino Unido, vi muita coisa diferente pela positiva e pela negativa. Sim, Londres é uma cidade muito desenvolvida em termos tecnológicos. Sente-se o flow financeiro e a vida da imensa multiculturalidade. As compras são praticamente todas feitas pelos cartões multibanco em sistema de touch, o que me surpreendeu, pois quase ninguém lida com o dinheiro físico. Tudo é rápido, e sentem-se as possibilidades de crescimento profissional e pessoal.

Mas nem tudo são rosas. A pressa de viver por lá, faz com que as interações pessoais sejam mínimas. Anda tudo a correr. E, num simples local como um supermercado, assisti a cenas lamentáveis, para comigo e para com os outros, no capítulo da falta de paciência e tolerância. 

Quando a Portugal cheguei, decidi prestar um pouco mais de atenção à nossa forma de estar e, para meu espanto, e exatamente no mesmo lugar, voltei a vivenciar cenas de violência totalmente desnecessárias, apenas porque haviam amplas filas de espera nas caixas de pagamento.

Sim, é certo que o nosso país está depenado. O dinheiro é pouco, os jovens são convidados a sair, e os velhos por cá vão ficando, o que inevitavelmente torna as coisas muito difíceis no sentido evolucional. Todavia, ficou-me a questão:  porque razão nos haveríamos de revoltar uns contra os outros? Assim, de repente, parece-me ler raiva nos olhos da humanidade. Como se o vizinho fosse o inimigo a abater. Mas, se é esse o sentimento que predomina, convém entendermos com alguma urgência o porquê.

Nunca um sentimento negativo levou o homem muito longe. E quando a fé num futuro melhor cai por terra, é como se num ápice nos cortassem a razão e a sede de viver.

O que me leva a um pensamento final: sim, resolver os problemas económicos locais e nacionais é um objetivo real e necessário, mas do que serve investir no dinheiro se não há a clareza e a sanidade mental do homem para levar avante e com sucesso esta tarefa? É quase como convidarmos um amigo para vir jantar à nossa casa e tudo o que fazemos é arrumar esta até brilhar e, no fim, esquecermo-nos de apresentar comida no prato. Não será isto um atentado silencioso a todos nós?

Não sei, nem tenho certezas de rigorosamente nada. Mas pensar sobre estas questões parece-me o caminho adequado e insinuadamente urgente. E talvez fosse nas salas de aula que os debates devessem começar…