A história diz-nos (e até a própria experiência) que, quando acontece uma revolução ou uma reforma profunda, em qualquer campo (do político ao religioso), sãos os extremistas de esquerda ou de direita, progressistas assanhados ou conservadores empedrenidos, que tomam conta do poder e deliberam e põem em prática as próprias ideias, quase sempre radicais. Com o tempo, e numa instituição democrática, verifica-se um recuo de tais posições em direção ao ponto de equilíbrio, percurso esse tanto mais rápido quanto a sociedade se revela sensata e dispõe de mecanismos de liberdade e de participação nas deliberações. Infelizmente, porém, se isso acontece na sociedade civil, com um regime democrático (o caso português da revolução do 25 de Abril, entretanto respaldada numa democracia constitucional, é um exemplo, entre muitos, dessa evolução equilibrada), o mesmo não se verifica num regime político ditatorial ou em instituições de gestão unipessoal ou elitista, baseada em conceitos de plutocracia ou teocracia ou aristocracia.

Tem sido o caso, infelizmente, da Igreja Católica, e de algumas outras religiões (islâmicas, sobretudo). Os princípios da tolerância, da liberdade, da participação dos crentes em geral, não constam do seu vocabulário, pelo que não há debate de ideias nem uma evolução pacífica. O então Padre alemão Joseph Ratzinger, nos anos 50 do século passado, logo a seguir à II Grande Guerra, vaticinava o declínio da Igreja Católica, por causa da liberdade nascente com o fim da guerra, a chegada dos valores humanistas e o desmoronamento das ditaduras (desgraçadamente, o totalitarismo soviético permaneceu por mais quatro décadas). O padre Ratzinger (atual Bento XVI) foi considerado pessimista por alguns dos seus pares. No entanto, apesar de ele ter plenamente acertado na previsão, também não consta que o mesmo, apesar do poder eclesiástico que teve, como bispo, cardeal e papa, nada ou muito pouco fez para inverter a tendência de declínio da Igreja Católica e a adaptação da milenar instituição às mudanças consequentes do aparecimento das novas tecnologias de comunicação (e outras) e do apego do ser humano à liberdade de pensamento, de expressão e de debate.

Um dos movimentos mais radicais na história do Cristianismo – o monaquismo – atinge o apogeu com a fundação da Abadia de Cluny, Borgonha, França, no século X, em plena Idade Média. Mas o aparecimento deste movimento é no século IV dC, nos desertos do Médio Oriente, daí se estendendo ao Norte de África e à Europa banhada pelo Mediterrânio. Radicais como eram, ultrapassavam a autoridade dos bispos em geral e dos próprios bispos de Roma ou de Constantinopla. Estes monges tinham outros nomes, tais como: eremitas, ermitões, anacoretas, cenobitas, ascetas, homens do deserto, solitários. Em suma, viviam completamente sós ou em pequenos grupos, regidos por disciplinas duras. Os conceitos e preceitos postos rigorosamente em prática eram estes: perfeição, purificação, mortificação (padecimentos, sacrifícios), pobreza, frugalidade, meditação e, claro, virgindade, castidade e total abstinência sexual. Resumindo: eram mais papistas que os Papas! As suas regras e doutrinas acabaram por ser adotadas pelas autoridades eclesiásticas. E por estas águas, do século IV aos nossos dias, navegou o cristianismo cada mais pantanoso e fanático da Igreja Católica, com um ou outro período histórico menos rigoroso. Não admira, pois, que o clericalismo ainda não tenha conseguido renunciar ao poder terreno, que o fascina, e retornar à doutrina puramente evangélica, ficando embaraçado ao tratar de assuntos tão naturais como a sexualidade em geral e a possibilidade de os padres serem casados ou a atribuição das ordens ditas sagradas às mulheres. Mais grave ainda é as religiões (com especial relevo, o catolicismo, o judaísmo ortodoxo e o islamismo), com seus dogmas e doutrinas da sua própria lavra, por vezes, se meterem em áreas que pertencem a outros ramos do conhecimento científico: a biologia, por exemplo, que trata da vida terrena em geral e dos seus meandros (entre outros, a sexualidade, que é o tema destas crónicas). Para continuar.