Este assunto tem aparecido na internet, nas últimas semanas, não em forma de pergunta, mas agregada à notícia de que Bento XVI, o ex-Papa, estaria “muito fragilizado e doente” e – subentende-se – muito perto da morte.

A ligação deste facto com a questionável “renúncia do Papa Francisco” não se entende muito bem, porque extemporânea, na minha opinião.

É certo que o Papa Francisco tem estado muito calado, para além das curtas e calmas intervenções no momento da oração do Angelus, aos domingos de manhã, na Praça de S. Pedro, mas, desde o final do Sínodo da Amazónia, em 27 de Outubro de 2019, e a aprovação do relatório conclusivo do mesmo pelos membros sinodais, o Vaticano como que desapareceu da comunicação social, principalmente a partir da consequente publicação, em 12 de Fevereiro de 2020, da Exortação Apostólica do Papa Francisco denominada “Querida Amazónia” que, para além da “ternura” do nome. constituiu uma grande decepção para os católicos desejosos de uma “eminentíssima revolução” (já não basta uma reforma!). Mas mais inacreditável foi a clara reviravolta do Papa, que ele ou os seus cardeais ainda não explicaram. O que se sabe é que o Cardeal Robert Sarah, prefeito de uma Congregação da Santa Sé, se envolveu na elaboração de um livro favorável à obrigatoriedade do celibato dos padres católicos, ainda antes da exortação do Papa Francisco. Esse episódio foi classificado como polémico, mas, na opinião geral, foi uma autêntica vergonha, perante a troca de contraditórias declarações entre Bento XVI e o dito cardeal quanto à alegada coautoria do Papa emérito.

No entanto, os adeptos das reformas deste Papa ( por mim enunciadas na crónica nº 9, publicada neste jornal numa edição de Dezembro de 2019 ) ficaram profundamente desiludidos com o inesperado volte face do Papa Francisco, sem que o mesmo explicasse minimamente a razão de mais uma histórica “contra-reforma”.  Quem se interessou minimamente por estes assuntos relativos à organização humana da Igreja Católica já se apercebeu que o declínio geral é um facto indesmentível. Por exemplo, estatisticamente, e a partir de meados do século XX, o ramo sunita (apenas este) do Islamismo ultrapassou o ramo católico do Cristianismo – e isto em cinco décadas – o que nos dá a ideia de que algo está muito errado na propagação do Evangelho de Cristo e dos seus valores. Este declínio tem-se acentuado, primeiro na Europa evangelizadora dos quase dois milénios e, depois, na então cristianíssima América Latina.

Quem já viveu o bastante e está em condições de fazer comparações entre as décadas passadas e a atualidade sobre a situação da instituição humana da “Igreja” não pode deixar de ficar perplexo: não há clero suficiente e o que existe é de idade média avançada; não há dinheiro bastante para a manutenção da máquina religiosa (salvo numa ou noutra caixa de esmolas alimentada abundamente pela religiosidade simples dos crentes); e, sobretudo, a frequência ao culto é cada vez mais reduzida. E outras mais coisas conhecidas que, por hoje, não vamos tocar.

Ora, como se sabe, o Sínodo dos Bispos da Amazónia foi convocado pelo Papa Francisco para debater os problemas e soluções propostas pelos Bispos Católicos dessa enorme região, que abrange 8 (oito) países da América do Sul. Uma das propostas referia-se à ordenação sacerdotal de homens casados e à atribuição do diaconado às mulheres. Antes disso, foram constituídos grupos de trabalho, que laboraram durante meses e à comunicação social chegou o acima referido Documento Final e, posteriormente, a também referida exortação apostólica, que foi um balde de água fria nas esperanças de reforma da  ”Igreja”. No plano histórico não há dúvidas: Jesus Cristo, mesmo tendo em conta apenas os Evangelhos Canónicos (únicos permitidos pela “Igreja”), nunca questionou os “seus escolhidos apóstolos” se eram ou não casados e se aceitavam ou não o celibato como condição “sine qual non”. Na realidade, a verdade histórica – cristalina como a água – é que, nos primeiros séculos do Cristianismo, havia diaconisas e o casamento dos apóstolos e discípulos era um dado inquestionável. O curioso é que, por altura em que foi publicada a Exortação Apostólica, e quase por mera coincidência, entrei, como me é habitual, no sítio “Vatican News” (em português) e fui ler a página do “Santo do Dia”: era a Santa Águeda (ou Ágata), uma jovem – com muita beleza – de família da aristocracia romana que vivia no sul da Itália. A mesma foi martirizada pelo governador romano por causa da sua fé e dos desejos obsessivos do dito governador. No seu currículo constava que era … diaconisa! A festa religiosa celebra-se a 5 de Fevereiro.

Sobre o relativo fiasco deste sínodo alguém deve aos “irmãos em Cristo” e, para registo na História, uma explicação cabal. Na verdade o que se passou no Vaticano?