Eu não sei se os médicos do SNS são mal ou bem pagos. Presumo que, como muitos outros profissionais, possam ser mais bem remunerados. No entanto, considero também que se o Estado pagasse a todos os cidadãos trabalhadores o que cada classe acha justo, iria à bancarrota no mesmo dia.

Se esse problema, o da remuneração, é o principal factor responsável pela crise dramática que vivemos no SNS, alguma coisa tem de ser feita urgentemente.

De que nos vale ter os sistemas privados de saúde com fartura de médicos, quando três quartos dos portugueses não têm acesso a esses sistemas?

Tais sistemas têm como vantagens os tempos de espera mais reduzidos, o que não é de somenos, e também a simpatia no acolhimento e o acompanhamento dos doentes no interior das unidades. 

Há uns dias, tendo recorrido a um hospital do SNS, deparei-me com uma grande quantidade de doentes com actos médicos programados, portanto não urgentes, que esperavam ao ar livre, manhã cedo, num processo controlado por um segurança privado. Felizmente não chovia, mas impunha-se claramente a presença de um colaborador do hospital que acolhesse as pessoas com dignidade e em instalações fechadas. Há muito para melhorar.

Já no que toca aos cuidados prestados, não são os dos privados de melhor qualidade do que os do SNS, sendo até que, em várias áreas da medicina, não dão a melhor resposta, por falta de recursos tecnológicos de ponta ou, simplesmente, por falta de interesse económico.

O objetivo desses grupos, quando reclamam uma maior participação no sistema nacional de saúde, é ir buscar ao Estado cada vez mais recursos financeiros para manter o seu negócio da doença.

Trabalhei de perto, nos últimos anos, com os maiores grupos de saúde, tendo percebido claramente coisas como o recurso sistemático a cirurgias como primeira opção de tratamento de patologias correntes. Ou doentes que, a meio de um tratamento oncológico, têm de ser transferidos para unidades do SNS porque deixam de ter capacidade de continuar a efectuar o pagamento.

Por isso são entendíveis os seus processos e objectivos, percorrendo caminhos completamente diferente dos do SNS.

Não existem muitas opções em cima da mesa. Ou se investe verdadeiramente no SNS, em equipamentos, pessoas e organização, ou se atira a toalha ao chão e se entregam verbas públicas, viabilizando com os nossos impostos o que deveria subsistir por si só, pelo simples facto de serem investimentos privados com o risco inerente à sua natureza. 

A não ser que a sua viabilidade já tenha em conta os dinheiros do Estado.

Como as associações profissionais ou sindicais referem permanentemente a falta de médicos para umas situações e o seu excesso para outras situações, consoante os seus interesses corporativos do momento, impõe-se a contratação urgente de médicos, mesmo que estrangeiros se os não houver por cá, para estancar as gritantes faltas de assistência recentemente noticiadas, e, simultaneamente, formar em Portugal o maior número possível de médicos, para que no médio prazo seja possível o reequilíbrio do sistema, não permitindo que sejam os interesses particulares a controlar uma área tão sensível da nossa vida colectiva.

Só assim teremos uma saúde para todos, baseada num sistema solidário em que todos pagam para todos, através dos impostos definidos em sede do orçamento de Estado.

A invocação permanente, por parte de alguns, do juramento de Hipócrates, esboroa-se completamente quando se percebe que esse juramento, face às questões do dinheiro, deixa frequentemente de ter qualquer importância.

No espectro político, percebemos também quem defende uma saúde para todos, ou, pelo contrário, o negócio da doença.

Há que desmascarar hipocrisias e tomar as decisões que se impõe tomar.

N.R.: O autor não segue a regra do Novo Acordo Ortográfico.

 

José Carlos Barbosa