Li, recentemente, num dos poucos jornais diários que se publicam, que o governo obteve um superavit nas contas do Estado de cerca de oitocentos e sessenta milhões de euros, havendo, por essa razão, uma certa euforia, e ainda que era a primeira vez em democracia que tal feito se verificava. Claro que se enaltecia a geringonça formal das esquerdas que conduziu os destinos do país nestes últimos quatro anos, e julgo que deverá, até, ter sido festejado tal feito com champagne, sim, porque estes “milagres” só muito raramente acontecem.

Com a quase totalidade dos órgãos de comunicação social nacionais a bajularem descaradamente quem está no poder, tentou-se passar a mensagem de que neste país tudo corre pelo melhor e que até já se conseguem saldos positivos nas contas do Estado. E não perdeu tempo o Bloco de Esquerda, pela voz de uma das suas estrelas, para referir que era necessário gastar esses milhões, uma vez que os orçamentos não são para gerar lucros. E, no seu entendimento, não deixa de ter razão, sabendo-se como as esquerdas apresentam uma especial propensão para a despesa pública, tendo sempre como justificação a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo, como gostam de salientar.

Só que a realidade não corresponde à doçura do bolo exibido publicamente, ou, por outras palavras, o excedente anunciado não diz respeito ao país real e concreto em que vivemos, mas sim a um país virtual algures levitando no espaço. E já explicarei as razões desta asserção com três ou quatro exemplos muito preocupantes.
Todos sabemos que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) vem passando por uma fase altamente explosiva, havendo muito boa gente que já questiona a sua continuidade, quando é público que tem dívidas assustadoras que se aproximam dos três biliões de euros. Os cidadãos também não ignoram que as Forças de Segurança enfrentam graves problemas de recursos humanos e materiais e, ainda, que o Estado deve aos agentes policiais alguns milhões de euros por não lhes serem pagos subsídios a que têm direito, para além da muito lenta progressão nas carreiras.

Professores, médicos, enfermeiros e respectivos auxiliares não chegam para as exigências dos Serviços, resultando greves e outras formas de descontentamento que, admitindo-se como justas, não deixam de lesar os utentes. O resultado é que a emigração, sobretudo de médicos e enfermeiros, continua em grande escala, deixando o país em estado de anemia.

A maioria dos Serviços públicos não dispõe de equipamentos informáticos actualizados, trabalhando com material anquilosado com avarias constantes ou que pura e simplesmente bloqueiam, o que não confere a operacionalidade necessária e atrasa o fluxo das respostas a dar aos utentes.

A corrupção é um cancro com metásteses que chega a todos os níveis da sociedade, mas com particular evidência no Estado, gerando desconfiança nos cidadãos, pese embora o facto de a Justiça, ainda que lenta, ir actuando, como recentemente aconteceu nas pessoas de dois juízes desembargadores. Crê-se que o combate à alta criminalidade poderia ser muito mais rápido e eficaz se o Ministério Público e as polícias fossem dotadas dos meios necessários.

Existem outras situações que, por falta de espaço, não mencionarei, mas o que importa deduzir e sublinhar é que o país, infelizmente, não se encontra na crista da onda como se pretende fazer crer e que esses oitocentos e sessenta milhões de euros de superavit nas contas do Estado só foram possíveis pelo garrote financeiro imposto às Instituições, que, encharcadas em dívidas ou funcionando a meio gaz, viram cerceados os meios para cumprirem integralmente as obrigações de serviço público.

Para finalizar, e citando o escritor francês Guy de Maupassant, diria que, em relação à imprensa que bajula de forma descarada os governantes, “a consciência de certos jornalistas encontra-se ao nível do seu talento”.

Desejaria, por último, enfatizar que este socialismo à portuguesa, um socialismo canhoto que se conduz pelo lado esquerdo da estrada como os automobilistas britânicos, é constituído por muita ilusão, muita demagogia e inverdades, o que me leva a intuir que jamais atingirá o objectivo de colocar o país nos eixos. Os cidadãos deveriam pensar mais no futuro e menos no egoísmo do quotidiano, agindo de forma inteligente com o seu voto.