Há momentos, na minha existência, por vezes sem motivo aparente, que toca à saudade. Mas que saudade?… Saudade de rapaz, saudade de criança. Na minha aldeia habitei, por lá, os longínquos tempos da década de trinta/quarenta do século passado. De menino passei a moço. Desenvolvi uma adolescência feliz, embora com as dificuldades de variada ordem, onde faltava a água potável, a televisão, a electricidade, o frigorífico, o telefone e outros meios agora considerados imprescindíveis. Mas éramos bons em hóquei em patins. E nós, garotos, amarrados a um rádio movido a pilhas, a aplaudir, com entusiasmo. Como tudo mudou! No presente é o fu­tebol que arrasta multidões, mas os jogadores a mostrarem pouca garra na luta, como aconteceu ultimamente. Na minha terra haverá pouca gente, ou talvez nenhuma, que exista com a data do meu nascimento. Já ninguém se lembra de mim, face ao calendário do viver. Mas recordo-a, sempre, numa memorização nostálgica daquela era do passado.

Fascinava-me o amanhecer na minha aldeia. As casas salpicavam a bonita encosta do sopé do monte. As manhãs eram bucólicas, com um sol doce e envolvente, em quase todas as estações do ano. A vida tornava-se calma. O dia a dia apresentava-se carinhoso, mas ofuscado de dureza, actualmente difícil de traduzir. A austeridade tinha que ver com a época. Eram cenários ásperos de guerra e após guerra na Europa e, em particular, sentia-se o controle do Estado Novo. Do eco exalado nessa era, lembro-me que, em meu redor, o silêncio, por vezes, tornava-se acariciador. Cada dia da programação litúrgica era respeitado com ternura e veneração. Os sinos do campanário da igreja tocavam as Avé-Marias ao crespúsculo e havia procissões nalgumas datas, nomeadamente, nos festejos anuais a co­memorar o São Martinho, em Novembro, padroeiro da freguesia. Neste des­filar de memórias recordo os momentos especiais de récitas no adro da igreja com as autoridades locais sentadas em bancos de madeira, num varandim da antiga escola primária, nervoso, mas cheio de vaidade, a declamar poemas escolhidos pelo senhor Reitor. Não posso olvidar, ainda, os célebres Natais em que o saudoso pároco construía um Presépio inimitá­vel no tempo, a Páscoa com a visita às casas, a Procissão de Ramos em que Cristo, na cruz, descia pelo meio da igreja, e os festejos anuais nas diversas capelas espalhadas pelos lugares da paróquia, tudo agora sa­crificado pela maldita pandemia, mas sem se perder a esperança em melhores dias. Os felizes tempos do São Martinho, em parte, já lá vão, porque fo­ram bons na época em que a humanidade era mais dada a folguedos e menos reservada, atentas as contrariedades que passam. As guerras, as injusti­ças sociais, a ladroagem, a corrupção, o populismo, a pobreza, o elevado nível de vida, aliado ao desemprego, apesar de o santo Bispo ter cedido metade da sua capa, nada tem melhorado, pelo contrário, agrava-se no contexto das nações. Mas para as gentes da nossa terra, mais acentuado no Norte do pais, de raiz minhota, que lhe dedicam verdadeira devoção, tristezas e preocupações não pagam dívidas e não é difícil, nesse dia, mostrar cara alegre e tentar esquecer as diversas vicissitudes com aquele bom verdasco que espuma para os copos, ou nas malgas, se for tinto, cabendo nesta minha quadra de feição popular:

 

Minho, terras do vinho verde

de um paladar sem igual;

Possui delícias dos beijos:

– Tem fama, além de Portugal!

 

Nota: – Esta crónica, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfi