O Dr. José Crespo, médico, escritor e cientista, faleceu em Fe­vereiro de 1992. Está a fazer anos, portanto, que deixou a sua Viana, como lhe chamava. Nasceu nas Beiras, mas desde que veio para o Minho, por aqui ficou, passando a ser minhoto do coração. Repousa em campa rasa, no cemitério municipal, como pretendia. Junto dele, descansa, também, a sua companheira de longos anos. Reitero, neste espaço da representação do pensamento, a minha sincera homenagem de saudade, para os dois, na qualidade de filho e enteado.

Quando regressei, de vez, a Viana do Castelo, por volta do ano de 1991, encontrei o meu pai já bastante cansado, tanto com o andar dos anos, como, até, pela falta da sua companheira. Nesta fase escrevia pou­co. Limitava-se a reproduzir trabalhos em arquivo. Quase todas as tardes visitava a Biblioteca Municipal, que a alcunhava “dele”, onde dormia uma soneca. Doou àquele Departamento de cultura viva todas as pesquisas que efectuou, relacionadas com o Padre Himalaia. Tratava-se de uma indi­vidualidade que trabalhou muito, tanto como escritor e cientista, além de médico. No seu tempo foi considerado o melhor clínico da região. Nesta cidade a abranger todo e concelho desenvolveu e desempenhou actividades públicas ao mais alto nível. As suas obras, algumas publicadas em várias edições, estão todas esgotadas. Escreveu muito, além das Beiras, sobre o Minho, principalmente, relacionado com esta Terra. Cito, entre outros, por exemplo: “O Minho Região de Beleza Eterna”, “Monografia de Viana do Castelo” – a primeira editada – “Viana do Castelo”, publicação ilustrada escrita em português e francês, “O Roteiro do Minho”, “As Feiras Novas e as Grandes Feiras Francas Anuais de Entre-Douro e Minho”, “A Ribeira Lima Romântica, Turística e Panorâmica”. Foi uma pessoa muito independen­te, a contar, sempre, com ele próprio. Personagem de enorme cultura, que possuía, em conjunto, o dom da palavra. Assim ficará a mostrar, aos ou­tros, na continuidade da vida, a sua verticalidade. Nesta cidade, onde viveu, passando a desenvolver todas as suas potencialidades e ficou se­pultado, a Municipalidade tem vindo a esquecê-lo, contrastando com Gou­veia. Quem pretender conhecer., em traços desenvolvidos, a vida e a obra deste estadista poderá consultar este importante órgão regional, na sua publicação de 7 de Maio de 2015.

O Dr. José Crespo mostrava-se um grande admirador de Camilo. Possuía, no seu escritório, uma estatueta deste escritor, que fiz doação ao mu­seu camiliano de S. Miguel de Seide. Nos seus trabalhos camilianos inse­ria, quase sempre, a casa de Viana do Castelo, habitada por ele, em 1857, agora demolida, devido ao lucro perverso das urbanizações, que se si­tuava em S. João de Arga, na periferia da cidade, no sopé do Monte de Santa Luzia. No ano de 1991, em Vila Nova de Famalicão, entre as obras apresentadas ao Centenário da morte de Camilo Castelo Branco, obteve o primeiro prémio com o sem último estudo subordinado ao tema “A Patologia na Vida e na Obra de Camilo”.

Acompanhei-o à cidade de Famalicão. A sessão solene decorreu durante a noite. Jantámos naquela terra. Estava sorridente, satisfeito, parecia uma criança, contando passagens do seu tempo de menino e moço, em Gouveia. Recordo que havia uma espécie de feira popular. Comprou um enchido — farinheira das Beiras — de que era apreciador.

Nota: Esta crónica, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.