Sejam todas bem-vindas! Disse a formadora de Get Up and Goals ao entrar na sala, mas, de pronto, ao descobrir a minha presença, pediu desculpas e retificou: Sejam todos bem-vindos! Senti-me como um exemplar exógeno, uma amostra rara cuja singularidade não era abrangida pelo pronome indefinido ‘todas’. Aquela alteração do plural para inserir-me no grupo aflorou em mim uma sensação de discriminação que punha de parte a identidade das pessoas presentes na sala. A circunstância individual de uma única pessoa, a impor-se ao resto do grupo.

Os historiadores da língua explicam que a coincidência do masculino e o genérico surgiu quando foi criado o feminino, como se a visibilidade da mulher obrigasse a um reforço dos atributos varonis. É certo que a realidade e a perceção que temos dela são duas coisas muito diferentes, por vezes, como diz o filósofo francês Clément Rosset, palavra e conceito podem estar dissociados. Por exemplo, podemos utilizar ‘Gestação de substituição’ como um termo técnico que remete para um processo médico e asséptico, quando na realidade estamos a falar de ‘Barrigas de aluguer’, que tem uma carga social muito negativa. A realidade não muda, mas as palavras eruditas eludem o contexto real das mulheres que se veem obrigadas a dar à luz filhos para outras, em troca da própria subsistência.

Numa ocasião, para introduzir na sala de aula o conceito de género nas obras musicais, falei das distinções baseadas nas diferenças de sexo. Um aluno fez uma observação pertinente sobre o sexo biológico, binário, e o que cada pessoa assume individualmente, que pode ser não binário ou múltiplo. Ainda que a palavra ‘género’ nasceu como um eufemismo para não mencionar o vulgar ‘sexo’ na puritana sociedade vitoriana do século XIX, hoje são conceitos bem diferentes. O sexo continua a ser uma categoria meramente orgânica, enquanto o género é sociocultural e patenteia um grande leque de desigualdades. A violência machista sobre as mulheres é a mais brutal dessas desigualdades de género e com um goteio de vítimas mortais que nunca mais acaba.

A linguagem nunca é neutra nem inocente e evidencia-se a necessidade de intervir coerentemente na eliminação de preconceitos e rejeitar perceções antiquadas sobre quaisquer pessoas ou grupos sociais. As propostas que circulam são muitas e com diferentes graus de viabilidade. A duplicação constante que praticam alguns políticos é um avanço, mas deixa de fora aquelas pessoas que não se identificam com o binarismo imposto de masculino – feminino. O uso de carateres como ‘x’, ‘@’ ou ‘/’ na escrita para abranger mais do que um género também é pouco produtivo pois não é possível pronunciá-los verbalmente. Utilizar o feminino como genérico pode gerar confusão e até rejeição por não promover a plena igualdade de género. Adotar uma linguagem neutra seria mais conveniente e poderia concretizar-se com uma solução radical como a que irrompeu no espanhol de Argentina criando um novo morfema para o genérico, e assim ‘o menino e a menina’ poderiam ser ‘es menines’. Há outra solução para uma linguagem neutra de género que seja inclusiva, respeitosa e abrangente, e que Thaís Costa resume, no seu blogue, em cinco pontos: 1. Evite artigos e pronomes de género para substantivos uniformes; 2. Use artigo ou pronome neutros quando possível; 3. Substitua adjetivos por alternativas neutras; 4. Substitua sujeitos por ‘pessoas que’; 5. Use o nome do agrupamento em vez de sujeitos no plural.

O linguista Juan Carlos Moreno Cabrera, numas reflexões críticas Sobre a discriminação da mulher e dos linguistas na sociedade, diz que podemos discutir, argumentar e valorar os guias destinados à linguagem administrativa “mas é o uso que é feito deles que os selecionará e estabelecerá, e não o que pensam as academias ou certos especialistas em linguística, gramática ou filologia”.

Pois sim, ninguém sabe como a sociedade vai resolver a questão da igualdade de género, mas, se a consciência do problema continua a crescer, a desmasculinização da língua acontecerá. Isso sim, será muito devagar e sempre de baixo para cima.

Quando no século XIV a escrita mensural da música atingiu a sua madurez rítmica na Ars Nova, o poder da igreja impôs que o tempus perfectus não podia ser binário, mas tudo o que estava relacionado com o sexo ficou num tempo imperfeito. Agora, pela pressão que vem de baixo, o género evolui, deixa de ser binário e aperfeiçoa o tempo em ação formadora.

 

Por Rudesindo Soutelo, Academia Galega da Língua Portuguesa.
Compositor e Mestre em Educação Artística e Ensino de Música.