Nós julgamos controlar, na perfeição, tudo e todos. Puro engano. Nem sequer nos controlamos a nós próprios. Essa função de controlo é inerente à vida de cada um. Como indivíduos, como pais, como cônjuges, como donos de uma ou mais empresas, como proprietários de uma casa ou mais, de pedaços de terra, de uma instituição por nós dirigida, ou função pública ou privada. Nada disso. Aquilo que temos de mais importante – a vida, a saúde, a existência, sobretudo isso – falha em absoluto ao nosso controle.

Procuramos ser previdentes, evitar desastres ou doenças, preservar costumes e tradições, acautelar bens, prevenir roubos e burlas, segurar tudo e mais alguma coisa, garantir o futuro e um cómodo lugar na eternidade. Mas, na verdade, nada está firme debaixo do firmamento. Os filósofos, os profetas, os chefes religiosos, os guias espirituais bem nos avisaram, e continuam a avisar, que todos essas preocupações exageradas são inúteis e até contraproducentes, isto é, têm o efeito contrário, porque nos enchem de ansiedade, de depressão e de tristeza profunda.

A propósito, recordo muitas vezes o que ouvi de alguém sobre o extremo cuidado que certa pessoa tinha sobre todas as coisas, muito especialmente propriedades, urbanas e rústicas. Tudo muito bem acautelado, todos os registos em ordem, câmara municipal, fisco, impostos, conservatórias. Tudo estava fortemente blindado contra ladrões e vigaristas ou abusos do próprio Estado, do qual dizia não ser pessoa de bem. E era de desconfiar de toda a gente, sobretudo familiares. Com essa filosofia às costas passou uma vida inteira. Preocupava-se com o dinheiro depositado nos Bancos, que visitava com regularidade semanal; assegurava-se que as aplicações financeiras eram sólidas, quer na fortaleza dos depósitos, quer no seu rendimento mais lucrativo. Os anos foram passando e as preocupações foram aumentando. A certa altura, de um momento para o outro, a cambalhota foi grande: perdeu tudo, tudo! A derrota foi total. A pessoa não conseguiu enfrentar a situação, o cérebro enfraqueceu, a energia desapareceu, a morte, ainda prematura, chegou. De seu levou, apenas, um fatito coçado e, desta vez, as preocupações ficaram definitivamente enterradas.

Neste momento de clausura anormalmente longa e forçada por algo ínfimo, que nem ser vivo é, nem pertence ao reino animal ou vegetal ou mineral, mas vem das profundas do inferno, estamos em casa, meios parados, meios confusos, meios patetas. O curioso é que o tempo passa depressa de mais. No fim do dia, pensamos: mas que fiz eu? Se calhar muitos de nós estamos a fazer algo que raramente fazíamos: pensar, refletir, meditar. Adquirimos mais conhecimentos ao longo dos anos? Claro que sim. Arrecadamos mais sabedoria? Provavelmente que sim. Tudo na vida tem duas faces: a frente e o verso. Um lado ou outro tem, muitas vezes, valores diferentes. Nem tudo é bom, mas também nem tudo é mau.

Não somos donos de nada, muito menos deste planeta Terra, que não passa de um grão de areia no contexto cósmico. Tenhamos calma, e alguma sensatez, que a vida corre depressa demais.