Nas cidades, todos os edifícios devolutos devem merecer a nossa preocupação. Não me parece legítimo que um lugar tão infraestruturado possa permanecer sem função, pelo que, quaisquer iniciativas que permitam densificar de vida urbana o espaço construído, são bem-vindas e prestam um serviço à cidade e aos dinheiros públicos. Mas não a qualquer preço.
As transformações tecnológicas operadas nas últimas décadas permitiram libertar total ou
parcialmente, muitos espaços em edifícios urbanos que antes eram essenciais a muitas
atividades. É neste contexto que vimos esvaziada de função muitas das dependências da
outrora povoada Estação ferroviária da cidade de Viana do Castelo. Até aqui nada de novo e, a discussão em torno da forma como deveremos restituir a vida a esses espaços só poderia ser de louvar.
Sim, deverá ser equacionada a hipótese de dar novos usos a espaços que estão sem atividade no edifício da Estação, mas isso não deverá descaracterizar, secundarizar ou mesmo eliminar a função principal desse edifício enquanto estiver ao serviço da rede ferroviária de transportes.
A desativação de muitas linhas e ramais ferroviários ao longo das últimas décadas, deixou sem uso muitos troços desta rede e ao abandono muitas das suas estações, pelo que hoje acolhem, na sua totalidade, serviços hoteleiros como são os casos de Cabeço de Vide (estalagem Rainha D, Leonor), Castelo de Vide (Pensão Destino), Marvão (Train Spot Ghesthouse), ou Celorico de Basto (Pousada de Juventude). Já outras estações que mantêm a sua atividade principal, como acontece com as três grandes estações de Lisboa central (Cais do Sodré, Rossio e Santa
Apolónia) fizeram apenas o aproveitamento de espaços sem função, sem colocarem em causa nem retirarem dignidade aos espaços da estação propriamente dita, quer seja no acolhimento e serviço que prestam aos passageiros quer na forma como estes disfrutam dos mesmos. O serviço continua a fazer-se pela porta de sempre e tudo o que é essencial continua nos mesmos locais e com a mesma dignidade no conjunto edificado. Estes edifícios continuam a ser Estações de Comboios. Ninguém se refere à estação do Cais do Sodré como sendo o edifício do “Sunset Destination Ghesthouse”, à do Rossio como sendo o edifício do “Lisbon Destination Hostel” e, muito menos à de Santa Apolónia como sendo o edifício do “The Editory Riverside S.ta Apolónia Lisboa Hotel”. Estes equipamentos, independentemente do espaço que ocupam, não rivalizam com a função principal do edifício que permanece a mesma. Resignam- se a ocupar espaços que estão devolutos assumindo uma função secundária no conjunto.
Temo que Viana do Castelo venha a “inovar” também nesta matéria e ali se venha a fazer um hotel que, por acaso, também tem uma estação ferroviária, que é tão só a mais importante da região. Se assim for, estaremos a hipotecar grande parte da história da cidade e do desígnio que para ela foi a chegada da ferrovia, e contribuir, dissimuladamente, para a obsolescência da Linha do Minho, logo agora que alguns parcos e tardios investimentos estão a ser feitos.
No primeiro dia em que um passageiro deixar de poder entrar ou sair pela porta principal
daquele que é o edifício da Estação de Viana do Castelo e lá dentro ter serviços de
acolhimento e espera com dignidade e deixe de poder trocar umas palavras de circunstância com quem lhe serve um chá ou um café ou enquanto come qualquer coisa que lhe alivie a espera, é a desvalorização completa da infraestrutura que estamos a promover. Todos sabemos que duas máquinas (uma para vender bilhetes e outra para laranjadas) “resolvem” o problema, mas quando sucumbirmos a esse destino é a cidade que perde. Perde importância, perde visibilidade e, a prazo perderá também o serviço.
Não sei o que irá acontecer, mas temo o pior e que a decisão já esteja tomada e tornada
irreversível. Por isso há muito que defendo que projetos que alterem o domínio público (e este é um deles) devem ser precedidos por um amplo e franco debate público que possa ajudar sem se substituir na decisão.
Vejo também com certa estupefação (mas sem surpresa) responsáveis políticos apresentarem-se mais preocupados com a rentabilidade dos negócios privados do que com a Cidade que deixarão no futuro. Não faltam por esse país fora (e até nesta cidade) estabelecimentos hoteleiros com muito menos de 40 quartos e que dão mostras de serem rentáveis pelo que não entendo a utilização deste argumento por parte do atual edil da cidade em jeito de antecipação a qualquer justificação futura.
Mais uma vez espero que ainda seja o tempo de reflexão e de ponderação, que mais transparência nestes processos decisórios tornariam inevitáveis… mas, infelizmente, temo que não.

Jorge Teixeira