A partir de um estudo realizado pelo PERDA (Projeto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar – desde os campos até à mesa dos consumidores), o último semanário “Expresso” dá-nos a conhecer números sobre o desperdício alimentar, mundial e nacional, que são motivo para cuidada reflexão.

Ficamos então a saber que no mundo, anualmente, o custo do esbanjamento alimentar (em termos económicos, sociais e ambientais) é na ordem dos 2,24 mil milhões de euros; e que, no mesmo período, se desaproveitam 89 milhões de toneladas de comida, sendo que um milhão acontece em Portugal. Abordando concretamente o que se passa connosco, neste país de parcos recursos, temos um valor pouco simpático de desperdício, sobretudo nos alimentos que, remetidos para aterros sanitários, muito contribuem par diminuir a duração destes e colocar novos problemas de acomodação dos resíduos, em permanente crescimento.

Estamos longe da conjuntura em que tudo se aproveitava e nada se perdia. No tempo em que não havia sobras nos pratos das refeições e em que se comia o pão, mesmo que duro, porque em casa, especialmente na aldeia, apenas se cozia a broa uma vez por semana; no tempo em que todos os restos tinham aproveitamento, em última instância para fazer florescer a horta caseira. Mas, acima de tudo, estamos longe da sociedade em que praticamente não se produziam lixos. É evidente que ninguém quer voltar à época de ter que racionar o pouco, tantas vezes passando fome, para conseguir o mínimo para cada refeição. Mas isso foi o que aconteceu ao longo de décadas a um número incontável de portugueses.
Ninguém deseja voltar ao passado, apesar de frequentemente alguns afirmarem que esse é que era o tempo a que deveríamos retornar; à época do trabalho, da ordem e do respeito, negando o progresso que, felizmente, é o caminho evidente da humanidade. Mas não refletir sobre o que desperdiçamos, para nos sabermos ajustar melhor a um planeta que precisa de ser mais harmonioso na satisfação de necessidades básicas, eliminando pobrezas extremas, sem colocar em causa a sua sustentabilidade, é não conjugarmos com a realidade, vivendo egoisticamente, não respeitando os carecidos e pondo em causa o futuro das novas gerações.

A reflexão e a ação deveriam ser, em cada dia, uma constante de todo o ser humano. O mundo perfeito jamais existirá, por mais que o aspiremos. Mas é bem possível construí-lo de forma mais justa, de maior proximidade e de mais longa duração.
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