Não, não me refiro ao combativo Tino de Rans, que conseguiu apresentar-se como candidato à presidência da República nas últimas eleições, mas sim ao tino ou bom-senso que, em cada legislatura, devia reforçar-se, considerando que vai sendo deficitário na classe política que dirige o nosso destino colectivo.

Um país que vive diariamente com fortes constrangimentos financeiros e que tem de recorrer, com frequência, aos empréstimos internos e externos, dá-se ao luxo de dispensar uma receita de cerca de cento e setenta milhões de euros anuais, proveniente das taxas moderadoras da saúde, que ia ajudando os hospitais a resistir ao garrote financeiro em que se encontram.

Se os hospitais públicos e centros de saúde já rebentam pelas costuras, pelo excesso de procura, com alguns a funcionarem em condições sem dignidade, amontoando os doentes em corredores e até em casas de banho por não conseguirem dar resposta; se é um facto que estão afogados em dívidas, já que o governo não lhes disponibiliza os meios financeiros necessários; se é verdade que os médicos e enfermeiros se encontram extenuados e desiludidos com as baixas remunerações, condições de carreira e excessiva carga horária, o que os leva a procurar os hospitais privados e até a emigrarem para exercerem dignamente a sua profissão; se é verdade que a saúde está num caos, tudo isto por falta de meios financeiros, como é que se entende que o governo e a Assembleia da República se dêem ao luxo de dispensar esta verba? Em nome de quê? Os doentes ficarão mais aliviados?

Com as políticas sociais vigentes, não acredito que haja algum cidadão neste país que não disponha de cinco euros para pagar a taxa moderadora quando tem necessidade de uma consulta no SNS, até porque aqueles que, de facto, não podem pagar, beneficiam de isenção que o Estado lhes concede, e, ao que se sabe, até são muitos. E cinco euros será pedir demais? Não, não é, porque na vida não podemos possuir tudo e há que fazer escolhas. E as escolhas passam, naturalmente, por evitar despesas supérfluas em favor de outras urgentes e inadiáveis, como é o caso da saúde. Com esta medida legislativa não duvido que os centros de saúde e hospitais passem a ser superconcorridos, com situações abusivas que de doença nada têm, como já acontece em alguns.

Que os partidos das esquerdas – orgulhosos autores desta medida, que outro fim não tem senão obter votos em eleições – aplaudam, não me espanta, porque está no seu ideário alimentarem-se na manjedoura do Estado; mas já me admira que outros com ideários diferentes, como os do centro-direita, tenham embarcado nesta viagem eleitoralista suicida. Sim, digo suicida, porque este governo, já com tantos impostos lançados sobre os cidadãos, vai ter de ir buscar os cento e setenta milhões de euros a algum lado, como aliás já nos habituou, para compensar o buraco orçamental, visto que o dinheiro não cai do céu. E esse algum lado assenta, naturalmente, sobre os cidadãos e as empresas. Como podem, depois, os partidos criticar a subida dos impostos, se contribuíram de forma consciente para esse fim? Não será isto demagogia barata?

Compreenderia esta medida, assim como outras, se o país possuísse recursos em quantidade. Acontece que somos um país pobre que, bem recentemente, esteve à beira do colapso de que ainda não se reergueu totalmente, vivendo no fio da navalha, que o mesmo é dizer que, perante outra crise que venha a surgir, pode ser ferido de morte!…

Se não houver tino e este país não deixar de se “armar ao fino”, com um corpo de deputados consciente que, em maioria, crie legislação justa e não eleitoralista, seremos todos trucidados no presente e não deixaremos nada de positivo e animador para as gerações mais novas. Será isto que desejamos? O egoísmo chega assim tão longe?

É que não se trata somente da taxa moderadora que deixa de se pagar. Também os estudantes não pagam os livros escolares no ensino básico e secundário, os transportes públicos são praticamente gratuitos nas grandes cidades e o Estado paga a quem não trabalha. O país age como se fosse um dos emirados produtores de petróleo, onde, de facto, há governos que oferecem à população essas facilidades, e muito bem, porque dispõem de meios económicos que sustentam essas políticas.

Porém, o nosso país é pequeno, é pobre, tem uns serviços públicos a pouco mais de cinquenta por cento dos seus efectivos e está tudo a rebentar pelas costuras, com comboios a cair de podres e sem investimentos para a sua renovação, tendo de andar de mão estendida a pedir dinheiro emprestado ou aguardando ansiosamente que a União Europeia lho dê. O pior é se a torneira fecha!

O governo e o partido socialista não têm que ceder a todos os caprichos e chantagens da extrema-esquerda. Pensando bem, o que é produzem estes partidos? Só abraçam situações fracturantes e produzem despesa, pois a sua luta é para que o Estado gaste cada vez mais. Não só não criam riqueza como perseguem aqueles que a têm. Admira-me como ainda temos empresários corajosos que continuam a ter fé nos seus investimentos! Merecem uma estátua.

Muito mais haveria para dizer, mas há que respeitar o espaço que o jornal me concede. Fica, no entanto, um motivo de reflexão para os leitores do nosso “Aurora”, neste país sem tino que, de forma egoísta, não respeita as jovens gerações, legando-lhes pesadíssimos encargos.

Foto: Notícias ao minuto