Não se sabe ao certo a vinda dos primeiros judeus para o território que hoje é Portugal. Esta questão não é pacífica, escreveu recentemente (Carsten L. Wilke: “Fora da capital provincial, estelas antigas de judeus lusitanos foram encontradas em Villamesías (perto de Tujillo) e, há uma vintena de anos, em Mértola, a antiga Mytilis, no Alentejo. Essa pedra é o mais antigo testemunho da presença judaica no atual território português. Mas ela é – lá está – muito incompleta; da inscrição, ornamentada por uma menorah (candelabro de sete braços hebraico) gravada, não resta senão a parte inferior, comportando uma datação em língua e calendário latinos: die quar (ta n) onas octo (bri)s era DXX, o que corresponde a 4 de Outubro de 482. O costume de redigir as inscrições funerárias em língua hebraica só se difundiu quatro séculos mais tarde”1. Não há dúvida que os primeiros reis portugueses protegeram os judeus. Poderemos afirmar que, nos primeiros cinco reinados, os judeus viveram num clima de paz e proteção real. Prova disso é que os judeus são denominados pelos reis de «meus judeus», o que indica uma certa proteção e dependência perante o rei.

No século XV no mapa de comunas judaicas (só salientamos as do atual distrito de Viana do Castelo), aparecem-nos as seguintes: “Viana do Castelo; Ponte de Lima; Valença e Monção”2. Como sabemos, Portugal foi sempre um território com muitos judeus e, após o decreto de expulsão, publicado em 1496, em que deixaram de existir oficialmente judeus em Portugal, o culto manteve-se, começando assim a época do cripto-judaísmo (ou judaísmo encoberto), ou seja, praticavam o culto judaico às escondidas e que tomaram o nome de cristão-novos. Outros saíram, quem não se convertesse “oficialmente”, ao catolicismo teria de sair do país, indo assim criar riqueza por esse mundo além… Mas em Viana? Como escreveu Manuel A. F. Moreira: “Viana da Foz do Lima, como Vila portuária, detentora de poderoso hinterland e forelande, contou, desde o século XIV, com uma vasta comuna hebraica e, muito mais com a presença assídua e numerosa de «mercadores de nação» ambulantes, frequentadores habituais da Alfândega local. O comércio de panos e açúcar, a ligação aos marranos e cristãos-novos da zona da (canal da) Mancha e do Império Português, fizeram de Viana uma rampa de lançamento de fortunas e, ao mesmo tempo, de fuga clandestina para as zonas livres”3. Se consultarmos as suas profissões, nos presos pela Inquisição, elas indicam-nos a sua atividade, são: vendedores, alfaiates, mestres e mercadores, mas também almocreves, médicos e boticários. Mas aonde se situava a Judiaria de Viana?: “Ficava situada no coração do burgo (hoje denominada zona histórica), à Praça Velha (Igreja Matriz, hoje Sé), entre as ruas Grande e Tourinho.

Constava de uma ruela estreita e comprida, fechada nas extremidades, que depois da conversão dos judeus, tomou várias designações: João Casado em 1517- 1600; António Colaço – 1581; Seitães – 1643, 1672 e 1707; João Salgado – 1572, 1598, 1508; «judiaria» – 1549. (também a na atualidade a chamada rua da Amália, fazia parte da judiaria). Oficialmente não possuía, pelo menos desconhecemos o facto, sinagoga e cemitério. (…)

Pelo que consta das reclamações dos procuradores de Viana às Cortes de Lisboa de 1440, terá sido oficializada a sua existência em meados do séc. XIV. Antes os israelitas vianenses viviam dispersos à volta da Praça Velha, onde tinham as suas habitações, lojas e oficinas. As constantes imprecações e provocações contra a fé e práticas dos cristãos, não só em relação aos que passavam nas imediações, como também os que celebravam dentro da Matriz as ações litúrgicas, levou o rei D. Afonso V a impor o seu acantonamento na referida Rua”4. Fica aqui feito o convite para visitarem a antiga judiaria de Viana.

Bibliografia
1- Carsten L. Wilke, “História dos Judeus Portugueses”, página 13 e 14, Edições 70, Lisboa, 2009.
2 – Maria José Ferro Pimenta Ferro Tavares, “Os Judeus em Portugal no século XV”, página 75, Edição da Universidade Nova de Lisboa, 1ª Edição, Lisboa, Abril de 1982.
3- Manuel António F. Moreira; “A História de Viana do Castelo em dispersos II, Edição daC.M. de Viana do Castelo, 2011, página 14.
4 – Manuel A. F. Moreira, obra citada, páginas 19 e 20.