Os cem anos do “A Aurora do Lima” foram comemorados com pompa e circunstância. Para além de uma edição especialíssima do jornal, com capa do pintor Carolino Ramos, de 64 páginas, na qual escreveu praticamente toda a intelectualidade da cidade, realizou-se uma notável conferência que contou com uma comunicação de Artur Maciel, um distinto jornalista vianense, que escreveu para os jornais “O Século da Noite”, “A Voz”, “Noite” e o “Diário de Notícias”. Artur Maciel publicou vários livros, entre eles, “Uma viagem de cem anos”, título que tinha dado à comunicação proferida na conferência centenária. O livro, dado à estampa em 1958, é hoje uma raridade. Carlos Dias, outro ilustre vianense, que ainda há bem pouco tempo nos deu uma curiosa entrevista, entre outras coisas, ofereceu-nos um exemplar. Pela importância, pela beleza da escrita e pela forma como descreve a história do AAL, a par da história da cidade, entendemos que se trata de um escrito que deve ser do mais alargado conhecimento público. É o que vamos fazer ao longo de algumas edições.

“À memória dos poetas, dos escritores, dos jornalistas vianenses, e de quantos mais, mercê da sua pena, deixaram impressos em livro, revista ou jornal, algum amor ou louvor à terra e à gente de Viana”.

Quando me foi pedido que viesse a Viana para falar do “A Aurora do Lima” no dia em que se completam cem anos sobre o da publicação do seu primeiro número, as razões invocadas a fim de que o fizesse não me deixaram margem para qualquer hesitação. Apelava-se acima de tudo, para que a voz a ser hoje aqui escutada, por pertencer a alguém que a esta terra e ao seu jornalismo se achasse ligado por íntimos e fortes vínculos, pertencesse também a Viana.

Quer dizer: em data comemorativa como esta, para se rever através da carreira do mais antigo e glorioso dos seus jornais, Viana precisava como que de ouvir-se a si própria… Na emergência de que assim não viesse a acontecer, e lançada sobre mim a responsabilidade, só me cabia arcar com ela!

Noutras circunstâncias, além de quanto envolve de honroso, o encargo, por me ser grato, apenas me poderia sorrir. Dentro do tempo exíguo em que o recebi, (e, para mais, pejado de mil e um compromissos), não fosse a paixão profunda e sempre latente que tributo a esta Viana – que é bem a terra dos meus amores! – e ter-me-ia sido impossível o afoito esforço de me encontrar agora aqui.

Disse terra dos meus amores – e talvez seja mais certo chamar-lhe, na noite de hoje, a terra da minha saudade!…

Tenho a iluminá-la, bem sei a luz de uma aurora. Claridade que precede no horizonte a aparição do sol, haverá nela os prenúncios primaveris das alvoradas que sempre se renovam, as levantinas promessas que esperançadamente se repetem, vivificando as seivas, entranhando o raizame, desabrochando os gomos destas verdes e floridas margens por onde o Lima serpenteia, incessante e caprichoso, a espelhar no cristal das suas águas imagens de séculos.

Mas a essa mesma luz se descortinam outras horas crepusculares, perdidas estas em brumas para todo o sempre hibernais, outras alvas de que só nos resta o gélido rasto das neves que refulgiram e, inexoravelmente, de vez sabemos dissipadas… É aquele gosto amargo de infelizes, delicioso pungir de acerbo espinho… de que nos fala o poeta.

A todos que me ouvem, do mais fundo de alma comovidamente direi que as razões dos vivos puderam muito para me trazerem hoje a Viana, é sobretudo, pelo permanente imperativo da memória e da saudade dos mortos que aqui estou e aqui falo esta noite.
(continua…)