Recentemente, neste espaço, chamamos a atenção para a necessidade de haver um debate inteligente, sereno e responsável do Orçamento de Estado para 2021, com a sua consequente aprovação, numa perspetiva de enfrentamento do momento crítico que o país, a Europa e o mundo em geral estão a viver, com efeitos longe de quantificar. Infelizmente, o que se vai vendo é pouco animador e não pode deixar de criar apreensões. Se numa conjuntura assustadora como a que vivemos os partidos não assumem um comportamento cívico elevado, colocando os seus conceitos filosóficos em segundo plano e aprovando instrumentos de gestão orientadores de crescimento económico, mobilizadores por isso de todas as sinergias do país, bem razões temos para não respirarmos tranquilidade.

É preciso compreender que quando não há riqueza não faz sentido reivindicar distribuição. A montante da repartição há sempre a produção dos bens a repartir e disso é que é urgente tratar, para que não acabemos a ser o país lanterna vermelha do pelotão Europa em que nos inserimos, com as graves consequências que isso tem. Pouco edificante são, ainda, as “zangas de comadres” que boa parte dos partidos protagoniza na praça pública, com manifesto desrespeito de quem os elegeu. Os partidos são o suporte da democracia e sem eles não teremos uma sociedade de liberdade, mas partidos com menor elevação não fazem uma democracia forte.

 

“Os homossexuais são filhos de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deve ser expulso ou ter uma vida miserável por causa disso”. As palavras são do Papa Francisco. Para muitos católicos, que não conseguem sacudir o conservadorismo que anos de práticas lhes foram incutindo, tais palavras até podem constituir uma heresia, mas, pelo seu significado, estamos perante uma tomada de posição da igreja – desta sim, porque o Papa não pode ter assumido esta posição de moto próprio – que tem um valor superior para a humanidade. A igreja católica, pela sua prática educativa, humanista, pacifista e plural, tal como muitas outras religiões, faz falta às sociedades em geral. Mas não pode ser uma igreja que não acompanhe a evolução do mundo, que não queira reconhecer realidades e que alimente dogmas. Com o Papa Francisco a Igreja Católica tem dado muitos passos em frente e este pode ter sido gigantesco. Louvemo-lo por isso.