Afife foi uma terra de que sempre gostei. Ali frequentei a praia, acampei em jovem, e, posteriormente, em férias com a família. Já lá vão algumas décadas. Aí ganhei algumas amizades que ainda hoje subsistem. Ulteriormente, e apesar de todos estes afetos, ali fixamos residência permanente.

Dispunha-se também do rio, que de Cabanas desce até ao mar, onde os jovens se regalavam outrora e ainda hoje para se banharem e mesmo aprenderem a nadar. Uma espécie de piscina ali junto à ponte permitia, nativos e turistas, de usufruir da água corrente, refrescando-se no verão.

Recordo ali ao lado, o saudoso Porfírio Ramos, casado, com D. Lucília Fontes Pereira, pai de três filhos, com quem me relacionei bem cedo – um protésico – muito procurado nas redondezas e exímio bairrista, com consultório em Afife, amigo do seu amigo e sempre com as portas abertas, para consultas ou mesmo para cavaquear. Muitas vezes convidava os clientes para se sentarem à mesa, tomarem um café ou petiscarem do que dispunha em casa, e, nisso, a extremosa esposa “D. Cila”, acompanhava-o. A verdade é que, o que havia no frigorífico ou na despensa, era repartido pelos seus “convidados”/fregueses. Um falador nato. Tinha prazer nisso.

O Porfírio apreciava a pesca e praticava-a muitas vezes, sobretudo no verão. Gostava de dar uns passeios até ao Bico, praia fora e, isolava-se por ali. O Bico é uma zona rochosa encravada entre o mar e o areal, uma espécie de pequeno cabo um pouco a sul da praia da Arda, onde, muitas vezes, se dedicava à apanha do marisco.

Conciliava uma daquelas casinhas de pescadores, feita em pedra, onde gostava de se acantonar no verão e dormir algumas sestas. Também convidava os amigos para algumas comezainas, como era seu timbre, e lá se ia o produto da pesca, conforme a situação. Bons tempos!

Uma outra predileção era a caça. Possuía os apetrechos necessários e na época reunia, com companheiros, e partiam para a monteada. Chegou a ser companheiro do meu tio Leandro Quintas Neves, nessas lides. No fim, do que havia caçado repartia. Era uma pessoa muito afável e, simultaneamente, brincalhão e prazenteiro.

Um dia, sem sabermos o porquê, chegou-nos a notícia de que o Porfírio Ramos, tinha posto termo à vida, metendo-se debaixo do comboio. Fomos todos surpreendidos pela sua atitude. Afife ficou de luto.

Era uma pessoa muito estimada e honrada pela população, que ainda hoje o recorda com muita saudade.