É verdade. Votar é um ato cultural. É o exercício do direito (há quem diga do dever) de participação no diálogo acerca daquilo que cada votante quer para a sociedade, expressando-se através do voto. Assumindo uma posição. Tomando partido. Comprometendo-se. Vinculando-se. Implicando-se. Ainda que secretamente. De resto, como deve ser. Para que ninguém possa ser prejudicado por causa do seu voto.

Mas há quem defenda que abster-se de votar também é uma pronúncia, uma manifestação, um contributo para a democracia. Só que…

É mentira. Não votar é um ato anticultural. É a renúncia ao direito (há quem diga ao dever) de participação no diálogo acerca daquilo que cada votante quer para a sociedade, não se expressando através do voto. Não assumindo uma posição. Não tomando partido. Não se comprometendo. Não se vinculando. Não se implicando. Nem sequer secretamente. De resto, como deve ser. Para que ninguém possa ser prejudicado por causa da sua abstenção.

A arqueologia considera que a Cultura é tão ancestral quanto o mais antigo esqueleto humano encontrado com marcas de uma fratura cicatrizada. No caso, uma tíbia. Porquê? Por se tratar de um ferimento que necessitou de ajuda de outros humanos para que sarasse. Porque, de contrário, aquele ser humano ferido teria sucumbido aos elementos e à seleção natural. Uma tíbia cicatrizada prova que alguém protegeu e providenciou comida a outro alguém, pelo tempo necessário à sua recuperação, numa demonstração daquilo que é, desde logo, uma elementar construção cultural.

Por outro lado, o facto de aqueles seres humanos terem escolhido, com recurso à sua inteligência, livre-arbítrio e em nome dos seus interesses comuns, tomar o seu destino em mãos, contrariá-lo e sobreviver-lhe, demonstra aquilo que é, igualmente, uma elementar construção política.

A participação política é cultural e a participação cultural é política. Demitir-se de uma é desprezar a outra. Daí ser tão importante, também para a Cultura, votar.