A relação de amizade prestes estabelecida entre o Amorim e o Rocha assentou desde início na total sinceridade que era timbre de ambos, a intimidade crescente entre os dois pautou-se de raiz por uma recíproca confiança ilimitada. Recorda o antigo alferes que, sabendo-se embora que até nos sanatórios medravam dissimuladamente alguns informadores da PIDE, não hesitou, a breve trecho, em declinar àquele amigo recente a sua militância comunista, exibindo-lhe mesmo o cartão «do Partido»; sentiu-se, contudo, um tanto ou quanto decepcionado nesse especial empenho: o Zé António, concitado a tão envolvente reflexão política, mostrava-se por vezes «extasiado, mas… não acreditava», nesse ano seguinte ao do levante e ocaso da “Primavera de Praga”, ele já não acreditava «que o nosso povo pudesse rumar a uma sociedade sem classes, viver em liberdade» (para trás ficara o tempo, isto lembrei eu ao emocionado Augusto Rocha, em que o nosso comum amigo levava daqui de Viana, escondidos, os exemplares do «Avante!» em papel-bíblia que o irmão Tone, o bom e inteligentíssimo secundogénito dos Amorins, guardava religiosamente para o doutrinar quando ele vinha de férias).

Como não podia deixar de ser, foi o gosto pela música o atributo que mais rapidamente os aproximou. Se o já trintão Amorim era um violista traquejado, o então twenty-ager Rocha era um guitarrista apurado, com a escola toda da Coimbra dos doutores e das tricanas; admirava-se, ainda hoje o afirma, de como o Zé «conseguia tocar daquela maneira, das notas que ele extraía duma viola que, com toda a franqueza, era um autêntico chaço, uma antiguidade!». Não adoptaram um nome artístico, mas logo formaram um duo musical que se faria ouvir, em alto e bom som, por todas aquelas terras serranas. Tocaram em conjunto nos sanatórios: repetidamente, no Sanatório Infantil; tocaram nas casas de amigos, a começar pela dos Almeidas, pondo a anfitriã a cantar o fado; tocaram, com certa notoriedade, numa quinta de «malta fixe» em Silgueiros, onde iam assistir, na cândida descrição dalguém que lá esteve uma vez quando muito jovem, «monárquicos, toureiros, pintores, escritores, poetas e mais gente assim»… Tocaram em sítios sem conta, pois esse duo ganharia fama, em toda a região, graças à propagação das suas músicas e canções através das ondas da Rádio Oceano, uma rádio pirata operada por marinheiros especialistas a partir dum estúdio improvisado no Sanatório Bela Vista (o destinado às praças da Armada), que emitia com um sinal mais potente que o das estações legalizadas da zona.

O seu maior espectáculo radiofónico foi um transmitido directamente da unidade entretanto convertida no Hotel do Caramulo, o Sanatório Salazar, com a duração de mais de quatro horas non-stop! Foi esse um ano, pouco mais de um ano, intensíssimo na vida deles os dois. Quando, em 1970, completamente curado, o ímpar amigo Rocha teve alta médica e deixou o Caramulo, o Zé Amorim sofreu, após a grã satisfação com esse sucesso, um desgosto insopitável: perdia de vista o seu “irmão” mais novo, aquele que lhe viera restaurar a alegria de viver. Muito provavelmente, o contentamento do alferes Augusto Rocha ao partir do Caramulo para abraçar a família, ansiosa pelo seu regresso com saúde, era já ensombrado pela sua convicção íntima de que o grande amigo Amorim não sairia dali com vida. Conclui-se num estudo científico ulterior sobre a eficácia do regime sanatorial na cura da tísica pulmonar que «o insucesso do tratamento devia-se à indisciplina dos pacientes e à complacência dos médicos». A regra áurea imposta aos pacientes era o repouso, mas para essa obrigação insonsa nunca o Zé Amorim teve paciência, nem ali o deixavam ter: o mal dele era o charme com que nasceu dotado, o seu ponto fraco, inveterado, as mulheres, e «elas» — disse-mo também o “nosso” ex-alferes, o licenciado jurista ora farmacêutico Brito Rocha — «puxavam por ele, não o largavam»! Os sanatórios eram mistos, com alas separadas; às refeições misturavam-se os sexos (ou seja, para evitar confusões: os géneros) e nas horas de lazer certas varandas e corredores tornavam-se no piso da “ala dos namorados”. Às dez da noite uma sineta dava o aviso da hora de recolher; eram regularmente organizadas rusgas sob a chefia de pessoal médico e quem fosse apanhado fora do seu quarto sem justificação clínica corria sério risco de ter alta compulsiva, o que implicava ser expulso, não podendo ser internado em qualquer outro hospital do País: a muitos foi aplicada essa sanção drástica. Mas não ao Zé Amorim, que até tinha uma chave da porta das traseiras do Grande Sanatório: em 1966, revelaria ele mais tarde, com inconsequente arrependimento, ao confidente Rocha, foram os seus pés avistados pela terceira vez debaixo da cama duma paciente (não sempre a mesma) pela ronda de vigilantes, que, usando de rara clemência, não o identificou, antes optou reconhecidamente por ignorá-lo, dessarte resguardando também a inocência da bela desadormecida…
(continua)