Por todo país, há organizadores de agendas ditas culturais, que optam por contratar indivíduos cuja actividade envolve a permanente transgressão de fronteiras, para espectáculos que commumente ocorrem a céu aberto, com acesso não regulado (portanto, abertos às pessoas de todas as idades), com dinheiro público (note-se), em ruas centrais, largos e jardins das localidades. – Refiro-me à boçalidade banalizada e, cada vez mais, institucionalizada.

Sendo que tal dejecção chega ao ponto de ser descrita como um brasão (quando, na verdade, consiste numa injecção de excremento e de polímeros, que muito desconsidera quem ao lado reside e deseje dar básicos valores à sua descendência).

Há quem não tenha vergonha de descer ao máximo à frente dos filhos (vangloriando-se ainda por isso). – Uns tais cogumelos que (não querendo conduzir um Punto ou um Clio) gostam de designar de “cultura popular” aquilo que é uma diarreira de palavras. Algo que contraria, por completo, as normas para a cidadania (que os educadores, os formadores e os professores nos dão, de forma profissional, atenta e preocupada – desde o infantário). – Um retrocesso, no qual se omite pretensões eleitoralistas.

Anos houve em que certos núcleos de pensadores foram apontados de arrogantes, pelo método que defendiam como sendo o apropriado para se dar educação ao povo. – Rótulo que – no meu simples entender e sem querer ofender – teve razão de existir.

Aboliu-se lamentavelmente os distintos cursos das então Escolas Industriais e Comerciais (históricos e fundamentais estabelecimentos, de onde resultaram inúmeras gerações de funcionários especializados e consagrados, entre outros), sob pretexto de ministrarem um ensino pouco dignificante (procurando-se seguir o padrão dos não menos valiosos Liceus).

Era suposto, após a cinzenta ditadura fascista, haver um fomentado acesso ao que de precioso é feito em cada região do nosso país. E um adequado auxílio à manutenção das mesmas iniciativas.

Recordemos que pelas freguesias de Portugal – do norte ao sul; do litoral ao interior – não faltam grupos desportivos; grupos de dança tradicional; conjuntos de música verdadeiramente popular; conjuntos de música moderna; conjuntos de música experimental; vastos eventos; aprendizes e mestres, que por rotina demonstram elevado potencial e alcançam excelentes resultados – tanto nacionalmente, como internacionalmente – e nada têm como suporte (resumindo-se tal, com frequência, a pouco mais que um passatempo). Englobo cidadãos com deficiências e cidadãos sem deficiências.

É muito mau tentar-se confinar a população jovem ao lugar de intelectual. E é, da mesma forma muito triste, dar-se à mesma população entretenimento do mais pútrido nível.

Uma ferida destas – como as demais – deveria ser sanada logo no início. Dá-se, no entanto, o oposto.

Induzir-se o povo em erro, canalizando-o para o beco da mediocridade e trancando-o no frasco da ignorância, é um acto de traição.

Cada vez mais se converte em mera peça de museu, o sangrento legado de todos aqueles que foram perseguidos; detidos; espancados; exilados; mortos, ao tão simplesmente procurarem – de forma assumida – condições sociais e cívicas elementares para as suas gentes.

Terá sido com este propósito que, em diferentes alturas, lutadores como Catarina Eufémia; Humberto Delgado; Ribeiro dos Santos; Alexandrino de Sousa; Max; Maria de Lurdes; Sá Carneiro; Amaro da Costa; José Carvalho, se bateram e arriscaram as suas vidas, bem como a segurança das suas famílias?

Seria abusivo ou seria mau, a esforçada pátria de António Aleixo, de Elvira Fortunato, de Rui Nabeiro, de heróis paralímpicos e olímpicos, ter uma aragem um pouco menos acidificada?

Findo o longo e infernal Estado Novo (com a sua “Política dos 3 F”), será honesto e deveras democrático deixar-se disto para a posteridade?

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