A minha cidade é, naturalmente, Viana do Castelo, uma beleza natural acarinhada por mar, rio e serras verdejantes, uma cidade onde a alegria das suas gentes está bem patente nos hábitos e costumes de séculos, marcadamente através do seu rico folclore, dos seus trajos típicos que espelham almas criadoras, e também, através da multiplicidade de cantigas populares e de coloridas romarias em todas as  freguesias do concelho, de que a romaria da Nossa Senhora da Agonia constitui o seu ponto mais alto com a adesão de milhares e milhares de gentes de outras paragens. Poder-se-ia dizer que Viana do Castelo está em festa durante todo o ano, transmitindo ao mundo um hino perfumado de frescura e de alegria de viver.

Foi assim que me habituei a ver a cidade a as suas freguesias quando para aqui vim exercer funções profissionais, já lá vão mais de quatro décadas. Aqui nasceram dois dos meus filhos, aqui estudaram e daqui partiram para outros rumos, como tantos outros jovens, levando consigo o nome de Viana do Castelo e, neste momento, o que mais me custa é não poder abraçá-los, assim como às minha netas e netos!

Cidade acolhedora, alegre, activa, empreendedora e modernizada ao longo das últimas décadas, Viana do Castelo é, sem dúvida, um cantinho do paraíso onde nos sentimos bem, com uma qualidade ambiental notável que cativa fortemente os que aqui residem e muitos dos que a visitam. Nas suas tendinhas na Praça da República aos fins de semana da época alta, geridas por grupos folclóricos que dançam, cantam e nos transmitem alegria, são também expostos para venda produtos e petiscos variados, que enchem de aromas diversos o centro da cidade, abrindo o apetite aos presentes e entrando pelas janelas das casas circundantes.

Mas…como nunca há bela sem senão, eis que tinha de aparecer um monstro negro e medonho, fazendo lembrar aquela figura sinistra do Adamastor descrita por Luís de Camões, nos Lusíadas, que tinha de infernizar a vida dos vianenses roubando a alegria e impondo comportamentos extremos. Essa figura medonha e traiçoeira que dá pelo nome de Covid-19, um vírus que silenciosamente se instalou no território municipal (e em todo o mundo), veio na verdade fazer-nos lembrar que devemos prestar mais atenção ao sentido da vida e que a luxúria e as vaidades tão em voga não passam de meras construções sociais sem substrato, porque somos todos vulneráveis às doenças, ricos e pobres. Na verdade, este vírus maldito vindo do Oriente, e, porventura, criado por acção humana, veio modificar radicalmente o nosso modo de viver em sociedade.

De repente, as autoridades centrais viram-se forçadas a impor o estado de emergência e, com isso, a adequação a uma nova realidade que virou as nossas vidas do avesso. O comércio local encerrou, as tendinhas e os petiscos desaparecerem da Praça, fomos obrigados a permanecer em casa para nos protegermos do contágio, a alegria das gentes desapareceu, as romarias que enchiam de alegria todos os lugares do concelho ficaram adiadas, a cidade tornou-se numa cidade-fantasma e fomos aconselhados a usar máscara. Parece que o território municipal hibernou e a vida quase que parou, não fossem as poucas excepções ligadas à produção de bens alimentares, para não morrermos de fome, e a acção heróica de todo o pessoal do sector da saúde e de outros sectores essenciais.

A minha e nossa cidade, de que tanto gosto, continua entregue a si própria, em coma prolongado, sem a situação de normalidade à vista. As ruas ficaram desertas, deixámos de interagir com familiares e amigos, as esplanadas sucumbiram à triste realidade da pandemia, um silêncio de morte instalou-se e aquilo que era um hino permanente à alegria e à vida neste território verdejante e ímpar, acabou por transformar-se num pesadelo de que tudo indica que não nos abandonará tão cedo. Usufruindo de liberdade plena vi, apenas, as aves e os peixes do nosso Rio Lima, porque não deixaram de conviver e não foram obrigados a usar máscaras ou a ficar confinados!

Na data em que escrevo estas linhas, a minha cidade mantém-se silenciosa e triste, embora aqui e ali algumas pessoas tentem desafiar o mostrengo vírico fazendo-se à luta, porque parar é morrer. E sendo que morrer é aquilo que ninguém deseja, tenho a convicção de que estes momentos difíceis terão servido para atribuirmos valores mais elevados à vida que Deus nos concedeu. Para todos os vianenses desejo redobrada coragem na retoma das suas vidas, sem nunca deixarem de cumprir os deveres de cidadania, cumprindo os conselhos das autoridades para vencermos este monstro que nos quer roubar a vida.