Quantas vezes já ouvimos dizer que determinado indivíduo possui um sentimento elevado de auto-estima? Que passou por experiências positivas e negativas e que, apesar disso, e de ter enfrentado diferentes situações de vida, acredita que cresceu interiormente, e tudo o que viveu valeu a pena ser vivido.

Para além disso, não é difícil perceber que indivíduos que carregam uma elevada auto-estima, gostam realmente de quem são e se tornaram, pois conseguem, com bastante transparência e leveza, transmitir a outros o quanto qualificam as próprias escolhas e sonhos arquitetados. São indivíduos, que carregam uma confiança acerca do seu valor pessoal e social, e que não conferem, apenas, um sentido à realidade que experenciam, como também dispõem de um senso de responsabilidade e altruísmo, capaz de “diluir” quaisquer fronteiras e conflitos que possam vir a contemplar.

Na contramão dessa magnética “aura”, cuja luz se reverte em ação solidária e acolhimento daqueles que necessitam de uma palavra amiga ou amparo emocional, encontram-se outros indivíduos, que por não amarem a si próprios, se desviam do que poderia ser uma autêntica jornada existencial, quando não, perdem-se em assombrados labirintos da mente – erguidos no passado – que ceifam oportunidades do presente e, principalmente, possibilidades, de um futuro mais promissor. Muito embora alguns destes indivíduos sejam afortunados, pelas comodidades ofertadas por uma boa morada, um excelente carro ou um emprego garantido, ainda assim sentem, nos recônditos mais escondidos da sua alma, que não conseguem dar um real sentido à sua existência, e mesmo ascender no seu íntimo uma luz que os ampare e guie enquanto caminham. Tudo, ou quase tudo, que vivem, tocam ou fazem, perde o brilho depois de certo tempo e torna-se destituído de qualquer valor e significado.

No caso desses indivíduos, costumamos dizer que “perderam o contato com as suas próprias almas”. Dito por outras palavras, perderam de vista a luz-guia interior, que os podia conduzir na direção da felicidade e bem estar consigo mesmos. Apartados dessa clareza na própria consciência, não conseguem conectar-se com a alteridade e, menos ainda, “com-partilhar” experiências, com o círculo social ao qual se encontram “vinculados”.

Em função disso, não conseguem ter uma auto-estima elevada, que os impulsione no sentido do auto-conhecimento e da auto-realização, com todas as limitações e potencial implícitos, que esta jornada suscita.

O facto é que todos nos encontramos numa mesma “embarcação” existencial, a navegar num mar de possibilidades, onde acertos e “erros” nada mais deveriam representar, do que um modo empírico, de podermos avaliar se estamos preparados ou não para o enfrentamento da realidade.

Entretanto, para que possamos avaliar as nossas experiências com um certo discernimento e uma boa dose de sabedoria, faz-se necessário o abrir mão de antigos hábitos, criados e cultivados pela mente – tão centrada no propósito do apenas “existir” – que nos aprisionam tal qual carcereiros, a idéias pré-concebidas, julgamentos de valor e principalmente, a falsas imagens que retratam o “vizinho do lado” como alguém feliz, porque recebeu da vida uma sorte diferente da nossa. A verdade, entretanto, é que todos nós, sem excessão, carregamos em potencial a capacidade de nos beneficiar desta mesma sorte, a partir do constante exercitar das nossas próprias escolhas.

Quando o mestre dos mestres, Jesus de Nazaré, nos orienta que devemos “bater, que a porta se abrirá” e, “buscar, porque iremos encontrar” está a desafiar corações e mentes para este mesmo exercício. Ou seja, para que possamos abrir a porta que nos leva a uma elevada auto-estima, é necessário que antes façamos uma busca das nossas almas. E posso afiançar, caro leitor, que já testemunhei a abertura de inúmeras portas, antes lacradas pela dor e o sofrimento.

Em última análise, para que se torne possível essa busca por uma auto-estima mais iluminada, faz-se necessário, antes, o exercício intermitente de observarmos, em nós mesmos, comportamentos, atitudes, ideias e pensamentos, para que possamos aprender a ter domínio sobre antigos hábitos da mente, e a transcender vícios, enraizados na nossa rede neural.

Assim, não parece tão difícil perceber que ir em busca da nossa auto-estima nada mais pode significar que um processo também de busca e ressignificação das nossas almas, o que só pode realizar-se a partir de um compromisso do indivíduo consigo mesmo e a sua personalidade.

O facto é que, ao tomarmos nas nossas mãos as rédeas da nossa conduta pessoal e social, passamos a ocupar uma posição única dentro do processo evolutivo. Quando isso acontece é porque atravessamos a porta estreita que nos conduz à luz-guia da alma, a partir da qual iluminamos a nossa presença no mundo – auto-estima – e nos prontificamos ao exercício do pleno viver e não somente do existir.

A título de sugestão, seguem algumas dicas para o exercitar da auto-estima:
* Observe os próprios sentimentos, pensamentos, atitudes e ações. Anote-os para avaliar qual o seu tipo psicológico: sentimental, racional, sensitivo, intuitivo.
* Exercite a afirmação de suas próprias verdades.
* Explore o desconhecido com a curiosidade de uma criança.
* Aprenda a compartilhar diferenças e semelhanças com a alteridade.
* Somos mestres e aprendizes. Permita-se ensinar e aprender. Doar e receber.
* Realize sonhos. Sonhe para realizar.
* Observe a natureza e valorize em si mesmo ciclos, ritmos e transformações.
* Crie e conte novas histórias todos os dias.
* Compartilhe segredos. Segredos guardados atuam como veneno.
* Adote causas e lute por elas!
* Expresse o que pensa e sente. Exercite a liberdade de ser uma luz única.
* Exercite a escuta de seus próprios sons e ruídos. O coração fala!
* Exercite o sorriso a partir do olhar.
* Escolha como será seu dia hoje! Exercite o poder da escolha.
* Exercite a gratidão por todos os seres e a natureza.

(*) Psicóloga clínica com mestrado em Ciências da Religião

(Imagem: “Alto Astral”)