(I) – Um Natal tristíssimo para muitos

Foi o de 1973, quando, lá longe, na serra agreste, morreu um vianês. E ainda hoje, para muitos dos seus velhos amigos e amigas, pois quem com ele privou, quem o conheceu, jamais o esqueceu; para os leitores mais novos, quanto mais não seja porque ficarão a saber um pouco melhor como se vivia e sobrevivia em determinados lugares do rincão pátrio no tempo dos seus pais e avós.

O Natal é, por tradição, na nossa cultura ancestral, a festa da família, do encontro familiar por excelência. Por isso é maior a desgraça, mais pesarosa, quando algum infortúnio acontece nessa quadra festiva. Foi, inditosamente, o que sucedeu neste dia há quarenta e cinco anos, na véspera da ceia natalina, quando em Paredes do Guardão, a actual vila do Caramulo, na serra do mesmo nome, se soube da morte do nosso conterrâneo José António Amorim, que aí se encontrava internado na Estância Sanatorial havia então mais de onze anos.

Ficou sepultado no cemitério local, na encosta da serra. O funeral, por razões óbvias, teve lugar logo no dia seguinte, e, apesar das prementes solicitações próprias da efeméride, formou um longo cortejo, reuniu gente não só dos sanatórios e da aldeia que estes fizeram nascer no ermo serrano mas também de várias freguesias circundantes: para além das de Castelões, terras de Besteiros, Tondela e demais do concelho, algumas dos concelhos vizinhos, desde Viseu e das terras de Lafões até, para sul, Carregal, Santa Comba, Mortágua e mesmo Águeda. Como recorda ainda agora, com a voz embargada pela emoção, aquele que quatro anos antes, nesse retiro, se havia tornado um dos seus maiores amigos — terá sido uma espécie de empatia imediata do primeiro grau, prestes se tratavam por “manos” —, «não houve ninguém», em torno da Serra do Caramulo, «que não tivesse sentido a mágoa daquela perda humana», porque «não havia por ali ninguém que não conhecesse o Zé Amorim, não havia ninguém que não gostasse do Zé Amorim».

Quem assim fala do José António Baptista de Amorim, pois de pronto fez questão de pronunciar o nome completo do amigo para quem era o Rocha, Augusto Rocha, o “manoco”, é actualmente um erudito advogado covilhanense que não exerceu (pro bono, só lições particulares de grego e latim, para manter acesa a chama), tendo antes optado, filho de boticário, pelo mester de farmacêutico «de quarta geração» na terra natal, Paul, e que em 1969, quando alferes de Infantaria em Angola, foi atingido por um estilhaço de granada no pulmão direito, o que acabaria por implicar o seu internamento no Sanatório do Caramulo durante mais de um ano.

Dizer aos vianenses de hoje, relembrando-o aos da minha geração que bem o conheceram — esse o propósito do presente escrito —, quem foi o também meu amigo Zé António (como era mais conhecido cá no burgo) Amorim, é tarefa que, com todo o prazer, embora ensombrado por um fundo de tristeza, me transporta em espírito para uma fase da minha vida a que Goethe, romanticamente, chamaria «os anos de aprendizado».

Por Carlos Fidalguinho
(continua)