Qual ladrão escondido no escuro da noite, que mascarado surpreende a sua presa sem que esta se possa defender ou denunciar, também a Covid-19 invadiu o nosso espaço e nos atacou traiçoeira e indiscriminadamente, causando desespero e morte.

Não vale a pena falar do temor que está a semear nas sociedades de todo o mundo, com alteração de práticas e hábitos impensáveis até há bem pouco tempo. Nem o presente será tanto de escrutinar o que está para vir no imediato e no médio prazo com destruição, em maior ou menor dimensão, em cada país. Há quem faça futurologia e equacione prognósticos, mas o que bem sabemos, por razões empíricas, é que nada de bom virá depois deste pesadelo que estamos a viver.

Quem há bem pouco tempo pensaria que não poderíamos confraternizar com os nossos, sejam familiares ou amigos chegados, que não poderíamos andar na rua e abraçar velhos conhecidos, gente que já não víamos há tanto tempo, tertuliar e tantas outras coisas; que não poderíamos enterrar os nossos mortos em cerimónia própria, com enquadramento que a sociedade pede, nem tão pouco deles despedirmo-nos com o sentimento de homenagem que a amizade impõe?

Recentemente perdi dois amigos. Um mais distanciado e outro quase ao meu lado. Ambos se enterraram sem que deles me pudesse despedir. O mais distante, dada a longa ausência de contactos, toucou-me menos. O mesmo não aconteceu com o Manuel Miranda, este o mais próximo e bem conhecido na cidade. Porque para além da estreita amizade que cultivávamos, o Manel era um cidadão elevado. Disponível para fazer boas amizades e para servir a sociedade, sóbrio e comedido, enquadrava-se bem no estilo de cidadão que aposta na discrição. Serviu e servia o SCV até tragicamente adoecer, como serviu a casa do pessoal do porto de mar, onde trabalhava. E pronto estaria para outras causas não fosse a morte bater-lhe tão cedo à porta.

Partiu neste tempo turbulento que nos atormenta, num contexto de secretismo comovente que nos custa aceitar, mas do qual não podemos fugir. Clément Marot (1496/1544), poeta da Renascença Francesa, dizia que “a morte era o fim e o princípio da vida”. Não sei se assim será, mas sei que com o Manuel Miranda jamais terei longas conversas amigas à mesa do café. Se Marot tiver razão, longa nova vida, Caro Amigo.

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