Tinha 14 anos de idade quando foi para a Bélgica. Era já o desejo de conhecer novas paragens. “Com 11 anos, colecionava a revista ‘O Mundo em que vivemos’. Ainda não tinha acontecido o 25 de Abril, e tinha noção dos muitos contrastes, dos usos e costumes. Das religiões e tradições muito diferentes e isso começou-me a fascinar. Já era um privilegiado, porque tinha passaporte e condições familiares. Disse aos meus pais que queria sair. O primeiro país foi a Bélgica, mais tarde a Dinamarca. E, depois, o Canadá (aqui a trabalhar numa subsidiária da NASA), em missão de trabalho. Regressei em 1982 para tomar conta do negócio das madeiras que os meus pais tinham. Dei, porém, continuidade às viagens”.

Entretanto, já tinha estado nas comemorações do 3º milénio de Jerusalém, tendo sido convidado a assinar o livro de linhagens. Nele figuram a de todos os monarcas, incluindo Herodes, desde que o Rei David a  decretou como Cidade Santa.

“Prefiro andar com dinheiro. Tenho sempre medo das falsificações dos cartões de crédito. Embora nunca tivesse nenhum problema. Há certas locais, como na Líbia, em que não havia cartões de crédito. No norte do Paquistão, é muito difícil… a não ser nos grandes hotéis”, esclarece.

VIAJAR SOZINHO EM PAÍSES DE RISCO

“Em países de risco, como o Afeganistão, Paquistão ou Síria, vou sozinho. Não levo mais ninguém”, refere-nos, revelando alguns episódios das suas viagens que, sublinha, lhe permitiram ter “outra visão do mundo e das coisas… e de que maneira”.

“No Paquistão, encontrei povos muito diferentes. Um deles, o Kalachi, que no início do século passado eram 250 mil e, neste momento, apenas dois a três mil. Os próprios muçulmanos dizimaram-os, do lado do Paquistão. Está ali nas montanhas de Tora Bora, um povo que se pensa serem descendentes de Alexandre O Grande: pela cor dos olhos, pela maneira de viver, pelo Deus que adoram, a maneira de beberem álcool. Deu para ficar duas noites. Trouxe algumas recordações, explicaram-me um pouco da sua vida(…)”, pormenoriza.

A comunicação dá-se por senhas. “Não domino o inglês, apenas o francês. Mas este fala-se em poucos países, a não ser na África do Norte e na Europa. Por isso, peço preços, escrevendo sempre num papel. A pessoa discute um bocado, calculo quanto pode ser em euros ou dólares. Hoje já é mais fácil por causa da Internet. Com o telemóvel já se traduz. Há anos atrás era mais difícil. Nos países do Oriente pedem quase sempre o dobro por certo número de coisas. Tem-se de marralhar (sic). Nas senhas, por exemplo, ponho um preço e o taxista outro bastante mais elevado…No restaurante é a mesma coisa. Se tiver lista, vejo o preço e escolho… Muitas vezes não sei o que estou a comer, mas nunca tive problemas com isso. Só no Bangladesh, pela aparente falta de higiene. Moscas, mosquitos. Se for necessário estão na berma da estrada a vender comida e o esgoto passa por baixo, a céu aberto”, refere.

TRABALHAR PARA TER UM GRANDE FUNERAL

Outras histórias.

“Na Líbia, no tempo da Kadhafi, estava com a minha esposa e ela tirou uma foto em que aparecia o banco central. Fomos logo detidos pelo polícia à civil. Mas tínhamos ficado num hotel, na Praça Verde, onde estava instalado, nesses dias, Nelson Mandela. Ainda andamos uns quilómetros a pé até ao hotel para que mostrássemos toda a documentação, mas, como estava lá o Mandela, a polícia quis apaziguar as coisas, disse-nos para não fazer mais fotos e mandou-nos em liberdade”.

“Na Índia. Quis ir visitar a árvore maior do mundo (que ocupa o maior espaço, mais ou menos o de um campo de futebol), situada a uns 70 km de Calcutá, no regresso, o taxista assustou-nos bastante, começou a discutir de tal maneira, não compreendíamos, chegou a um ponto em que se exalta e pára o táxi. Quis saber o que queria, eu dava-lhe mais dinheiro para a mão, mas não aceitava. O que era? Quando chegássemos a uma ponte, havia uma portagem e eu tinha de a pagar. Mas cheguei a dizer à minha esposa que estávamos perdidos. Depois de pagar as portagens, já em Calcutá, ele mesmo andou a passear connosco”.

“Outra coisa que me ficou na memória foram os mortos conviverem com os vivos. Em Tana Toraja, na Indonésia. As pessoas que morrem são embalsamadas e conservadas em casa. Sentadas numa cadeira. Mudam-lhe a roupa de vez em quando. Nessa região, trabalha-se toda a vida para ter uma grande funeral. No dia do funeral, se a pessoa tiver muito dinheiro, são abatidos búfalos e o festejo pode durar 15 dias; se a pessoa for mais pobre, são cabras. Quando se trata de uma criança ou bebé, abrem um buraco numa árvore. Vi com os próprios olhos. Metem-na lá dentro, tapam-na e a própria árvore vai cicatrizando. Para que a alma fique ali perpetuada”.

A 300 METROS DE BIN LADEN

“A viagem mais relevante foi a da ida ao k2 (a segunda montanha mais alta do mundo). Eu ia em direção a Abbotta Bad e, praticamente de 100 em 100 metros, era mandado parar. Por  estas bandas refugiava-se o Bin Laden. Estive na cidade onde ela estava.Pelo que me apercebi, dormi a 300 metros do local  onde Bin Laden estava. Isto foi em 2006 e ele foi morto em 2011. Eles já desconfiavam fortemente da sua presença”.

E o que mais o impressionou positivamente?

“O deserto de Atacama, na América do Sul, onde está um dos maiores observatórios do mundo que a NASA já instalou. Isso levou-me a que saísse em Buenos Aires, atravessasse a Cordilheira dos Andes, no deserto. As condições eram um bocado precárias, mas consegui ver o que queria”.

Na América do Sul, o perigo de ser roubado, à noite, é, diz Manuel Catamba, bem maior do que no Afeganistão. “Na Argentina, vê-se tipos com navalhas. Vi isso com os meus próprios olhos. Um tipo vinha para mim, por causa da máquina fotográfica. A própria polícia está sempre a avisar: olha a máquina! Ele vinha, mas eu tinha uma pessoa atrás, outra à frente e uma senhora ao meu lado. Com a navalha, zás, cortou e levou o saco da senhora. E poupou-me a mim. Mas quando o saco não rebenta, eles continuam a andar e a pessoa vai puxada”.

CRISTIANO RONALDO “FACILITA” A VIDA

“Outra vez vinha da Bolívia. Era uma hora da madrugada. O autocarro vinha cheio de pessoas, a polícia da Argentina mandou-nos parar, um frio terrível, todos tiveram de sair, inclusive crianças de colo. Passavam um por um. Chegou a minha vez de ser controlado na berma da estrada, olharam para mim, pediram-me o passaporte e exclamaram: Oh, Cristiano Ronaldo! Fizeram uma festa. Nem me abriram as malas. As outras pessoas foram controladas, rigorosamente”.

A propósito, o nosso interlocutor sublinha que Luís Figo, Guterres e Cristiano Ronaldo, neste aspeto, lhe têm facilitado muito a vida. Dá, a propósito, ainda o exemplo de quando foi à Líbia e à Índia. “Com o passaporte português, demorou apenas cinco minutos.  A minha esposa, com o canadiano, uma hora e meia”.

O MAIS E O MENOS

Do que mais gostou?

“Todos os países têm maravilhas. Fiquei fascinado com o povo do Bangladesh e do Myanmar (Birmânia). Também muito bem acolhido na Indonésia. Com os monumentos da China e da Índia. Com a natureza do Afeganistão e do Paquistão”.

E do que menos gostou?

“Na Finlândia. Gente fria com o estrangeiro. Mas todos eles têm coisas bonitas… No Irão fui roubado. Numa quinta-feira, à tarde, até julguei que era a polícia. Mandaram-me parar, pediram-me o passaporte, tiraram-me o dinheiro que estava no meio do passaporte, dei-lhes a carteira e o passaporte, atiraram-nas para o chão e levaram-me os dólares.  Na Líbia, andava a fotografar deitado, e a minha mulher a ver se via alguém. Quando dei por ela, no regresso, não tinha absolutamente nada cosigo. Apenas o passaporte e algum dinheiro da Líbia. Havia um embargo comercial e não havia aviões. Tinha que descer à Tunísia. Aqui houve uma pessoa, um senhor da Segurança Social desse país a quem contei o caso. Perguntou-me quanto fazia falta. Disse-lhe que tinha conseguido trocar algum dinheiro na Líbia e deu para remediar. Eu ainda queria ir mais para o interior do país….”

Como é que a sua família vê isto?

“Normalmente. A minha mulher vê isto muito bem, já fez algumas viagens comigo.  A minha filha também como é normal. Os meus netos vão ver à Internet os locais para onde eu viajo…”

PAPUA NOVA GUINÉ E ÍNDIA

E, agora, ainda planeia mais viagens?

“Estou a preparar uma ao reinado de Skin, na Índia, e outra à Papua Nova Guiné. O que me leva a isto são os documentários que vejo na National Geographic. Também penso ir à tomada de posse do governador de Basail (Tangai/Bangladesh). Também já tenho autorização e visto para ir à Coreia do Norte. Penso ir para meados de 2019. Tenho de ir pela China. Conto lá estar oito dias. Sai um bocado caro. Tudo é rigoroso. É mais pela curiosidade e ver o regime”.

Além de um  “globe-trotter”, Manuel Cantamba Araújo é alguém que também vive muito a sua terra. Disso é exemplo o facto de ter sido secretário da comissão de festas de Santa Marta, ter pertencido à direção do Grupo Desportivo do Centro Paroquial, integrou e foi relações públicas do Grupo Folclórico de Santa Marta e da Banda de Gaiteiros de Cardielos (aqui desde a sua fundação), colabora com a Ronda Típica da Meadela, organizou dois encontros de concertinas em Santa Marta e promoveu, com Francisco da Rocha, a geminação de Santa Marta com Jokkemokke (Suécia).